domingo, 4 de junho de 2017

Futebol, um esporte conservador

Antes de falar sobre o assunto, é bom entender o que significa "obrigação social". Seres humanos são animais sociais e muitos dos benefícios que conseguimos na vida dependem de aprovação alheia. O que significa que parecer simpático diante dos outros facilita muito a aquisição de benefícios e a vitória na vida. Esqueça essa palhaçada de Meritocracia: ninguém vence sozinho.

Para a pessoa parecer agradável diante dos outros, é necessário cumprir algumas exigências consagradas pelo senso comum. A sociedade não possui uma liderança que cobre por regras não escritas, mas qualquer um pode agir como "fiscal" e verificar se fulano ou sicrano está seguindo as regras impostas pela sociedade. E o gosto pelo futebol é uma dessas regras.

No Brasil, o futebol não é tratado como uma forma de lazer. Futebol é tratado como um dever cívico. Talvez seja o nosso único dever cívico, já que tradicionalmente desprezamos o verdadeiro civismo (o nosso silêncio diante do fim da soberania nacional imposta pelo golpe comprova isso). E por ser um "dever cívico", é consequentemente uma obrigação social. Ninguém sente simpatia por um desertor da pátria, mesmo que isso signifique apenas alguém que não se diverte com futebol.

Isso explica a (falsa) unanimidade do futebol, onde muita gente, principalmente as mulheres, finge o gosto pela modalidade esportiva para que não seja mal vista pela sociedade e perca os direitos que dependam das decisões de outras pessoas. Mesmo que digam que "ninguém é obrigado a gostar de futebol", assumir o desprezo por esta modalidade esportiva incomoda muita gente que sonha em vê-lo como uma atividade unânime. Algo biológico, que faça parte da espécie humana.

O conservadorismo das forças progressistas

O parágrafo anterior foi colocado para explicar o verdadeiro assunto desta postagem: o futebol como força conservadora brasileira. Esperneiem a vontade, torcedores esquerdistas : futebol é um esporte conservador. É o traço conservador que os progressistas se recusam a admitir.

Bom lembrar que todo o povo brasileiro é conservador e até mesmo esquerdistas são avessos a mudanças mais radicais na sociedade. Certas coisas como bebidas alcoólicas, religiões e o futebol, integrantes tradicionais do cotidiano de forças retrógradas, devem ser preservadas. O conservadorismo do povo brasileiro não permite que certos costumes sejam mudados, inclusive para progressistas.

O problema é que o futebol, lazer simplório criado apenas para entreter, criou meios de se manter numa excessiva popularidade. Como o futebol em si é sem graça, foi preciso criar próteses que desse "magia" a modalidade. Essas próteses cheias de valores "nobres" atribuídas ao futebol é que atraem o público e justificam a sua (falsa) unanimidade. Pergunte a qualquer um que assuma gosta de futebol porque gosta dele e vai ouvir alguma dessas próteses usada como justificativa.

Popularidade do futebol e a sua confusão com a própria pátria

Interessante o apoio de personalidade progressistas ao esporte. É compreensível pelo fato de viverem numa sociedade onde o gosto pelo esporte é uma imposição social, quase como uma regra de etiqueta. mas não deixa de ser surreal, pois o futebol é o esporte oficial das forças conservadoras.

Há direitistas que amam futebol ponto de o confundirem com a própria pátria, como também fazem muitos progressistas. Ou acham que os entusiastas do golpe sairiam as ruas vestidos com a camisa da CBF se não confundissem futebol com o Brasil?

O próprio futebol da CBF depende do Capitalismo e da mídia para sobreviver. O recente rompimento da CBF com a Globo, fato comemorado precocemente pelos progressistas é algo a observar atentamente, pois a magia do futebol tem muito de influência midiática.

Sem a influência da grande mídia, pessoas que fingem gostar de futebol por motivos sociais poderão sair do armário e abandonar o suposto hobby, diminuindo drasticamente a quantidade de pessoas que assumem gostar de futebol, fazendo aos poucos com que a falsa magia embutida no futebol desapareça e a modalidade deixe de ser um dever cívico para retornar a sua função original e inerente de simples entretenimento.

Apoio de forças progressistas a um esporte com praticantes conservadores

O mais curioso é que o futebol, talvez por ser o nosso mais tradicional esporte, envolve muitos conservadores entre jogadores, equipe técnica, "cartolas" e jornalistas. O único jogador que sei que é assumidamente progressista, Sócrates, esta morto. De jornalistas ligados à modalidade, apenas Juca Kfouri e José Trajano assumem de fato a opção pelos ideais progressistas. Não progressistas entre os empresários e especuladores do futebol por razões óbvias.

Há muitos jogadores conservadores, vários iludidos com a falácia da meritocracia. Um deles, integrante da seleção, assumiu ser fascista, com declarações reprováveis. Neymar, extremamente popular e influente, tem amigos entre conservadores. Bolsonaro, recentemente se comparou com Neymar em uma declaração. Como vê, jogadores em geral tendem para a direita, pois a maneira rápida como vencem na vida os coloca do lado oposto ao dos progressistas, por se tornarem magnatas "sem preparo", portadores de uma forma mais alienada de elitismo.

Mas como existem roqueiros que adoram um esporte cujos maiores atletas odeiam este gênero musical, não parece estranho que progressistas gostem de um esporte praticado por conservadores. O fato do Brasil ser um país que permite contradições permite estas aberrações: ver progressistas aplaudindo toda a magia permitida pelos mais retrógrados "cartolas" de futebol. Gostem ou não, o futebol, sem os "cartolas" voltaria à várzea, perdendo boa parte da falsa magia a que lhe é atribuída.

Não estou dizendo para que progressistas deixem de gostar de futebol. Mas largassem a boa fé que aumenta a importância daquilo que deveria ser encarado como mera diversão. É enxergar o futebol como instrumento utilizado pelo Capitalismo para manipulação mental dos adeptos e desvio de foco de assuntos mais importantes.

Pois para quem acha que futebol é patriotismo, acha também que somente a citada mobilidade trará dignidade para a sociedade brasileira, senão resolvendo os problemas, mas servindo de compensação para um país que insiste em recusar a progredir.

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