quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Exclusivo: Medo da solidão faz brasileiros gostarem de futebol

Se você perguntar para um brasileiro porque ele gosta de futebol, certamente ele não vai saber responder. Ele dirá algumas suposições e argumentos vagos. Mas para quem é mais atento vai perceber que existe sim um motivo que faz com que uma imensa maioria de brasileiros resolva gostar de futebol: o medo da solidão.

Um traço, digamos cultural, do brasileiro é que o futebol não é visto como um esporte ou simples forma de diversão. Para os brasileiros, o futebol é um agregador social e única manifestação de civismo. Isso acaba por transformar o futebol em obrigação social. Alguém que assuma desprezo ou aversão ao futebol é deixado de lado e perde os benefícios que só podem ser conquistados com a sociabilização.

Desde crianças, as pessoas são "educadas" a gostar de futebol, pois sabem que é o principal agregador social do Brasil junto com a cerveja e a fé cristã. Sabe-se que o Brasil nunca foi de fato democrático, nem mesmo nos governos de esquerda pois a natureza do brasileiro sempre foi o de sempre seguir o que faz a "manada" ser conduzida.

Brasileiros são muito mais sociais que os outros povos. Isso já está sendo famoso lá fora. Aqui modismos pegam com facilidade e ideias defendidas por grandes grupos de pessoas caem no senso comum e são consagradas como "verdades inquestionáveis". 

Estranhamente brasileiros são individualistas em matéria de conquista de direitos, mas coletivistas quanto a maneira de pensar. Trocando em miúdos, para grande parte dos brasileiros, pessoas devem ter um mesmo pensamento e diferentes direitos, quando deveria ser o oposto, o que seria bem mais democrático.

Vocação à diversidade cancelada pelo falso consenso do gosto pelo futebol

O futebol surge como uma espécie de falso consenso onde pessoas de diferentes ideias em outros setores encontram um motivo para "chegar a um acordo". Mesmo que torçam para times diferentes, o fato de gostarem de algo considerado uma obrigação social força este consenso. Mesmo que no caso dos hooligans a diferença de times leve a atritos violentos, mas não na perda da vida social.

Seres humanos, por serem animais sociais como formigas e anchovas, tem muito medo da solidão. Vários dos benefícios que temos a nossa disposição exigem algum nível de sociabilização para serem conquistados. O emprego depende de quem pague e mesmo o autônomo tem que entrar em contato com outras pessoas para que a freguesia pague por produtos ou serviços oferecidos.

O gosto pelo futebol foi uma maneira de domar uma sociedade que tem natural vocação para a diversidade. O Brasil, por sua grandiosidade territorial e pela variedade étnica, tem tudo para ser uma espécie de Torre de Babel. Algo precisava ser feito para que o Brasil não se tornasse um monte de relacionamentos conflitantes. 

A mídia achou bom que um esporte caracterizado por profissionais que enriquecem facilmente, subindo da classe E para a A sem escalas, podendo circular tanto entre os mais sisudos magnatas como entre os menos escolarizados favelados, fosse um bom meio de consenso entre diferentes brasileiros. Nessa que o futebol foi estipulado, através de uma invisível lei social (que não está escrita na Constituição) como um agregador social oficial. 

Mas pode crer: se não fosse o medo da solidão, outros esportes seriam muito mais curtidos e gostos diferentes seriam respeitados, fazendo com que o gosto pelo esporte fosse mais espontâneo. Por causa da obrigação em gostar de futebol (sim, brasileiros são obrigados a gostar de futebol, mas ninguém quer posar de ditador e inventa que "ninguém é obrigado", obrigando), muitos fingem gostar de futebol e assistem o jogo sem prestar atenção, apenas gritando a cada vez que a bola entra na trave.

"Quem não gosta de futebol, bom sujeito não é, e os incomodados que se mudem!": poderia ser este o lema do Brasil, um país que teria a vocação para ser o mais democrático do mundo e que encontrou um modo de atra a população em prol de um falso interesse em comum que logo se dissipa após o apito do juiz no final de jogo. E após o futebol, voltamos a ser a Torre de Babel santa de todos os dias. Até que se inicie o próximo jogo de futebol, quando fingiremos que somos um só coração.

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