domingo, 18 de março de 2018

O Futebol, sem a influência de cartolas e patrocinadores, volta para as lamacentas várzeas

Todos conhecem a estória da Cinderella: uma menina pobre, conhecida como Gata Borralheira, é adotada por uma família e é explorada como uma espécie de lacaia a fazer todos os trabalhos pesados para a casa. Um dia a família é convidada para uma festa organizada pelo filho do Rei, menos a Gata Borralheira. 

Depois da família sair para a festa, Borralheira recebe a visita de uma senhora, simpática e com poderes mágicos, conhecida como Fada Madrinha, que por meio da magia transforma a pobre menina em uma princesa, recebendo o nome de Cinderella. A menina vai a festa com a recomendação de que à meia noite, o encanto se dissipará, com a bela voltando a ser a menina encardida. O resto todo mundo conhece.

O futebol não é um esporte mágico. Seu poder de atração está nas próteses embutidas ao esporte, que o transformaram em algo fascinantemente sedutor. Boa parte do magnetismo do futebol, além da imposição como dever cívico-social, se deve a todos os pomposos enxertos clocados na modalidade graças a cartolas e patrocinadores, com grande ajuda da mídia corporativa.

Todos que curtem o futebol admiram estes enxertos que transformam a modalidade em algo mágico e sedutor. Mas se observarmos bem, analisando de forma fria e objetiva, vamos perceber o futebol que nada tem de sedutor e sua popularidade se deve a tudo que é construído em torno dele. Sem os enxertos de nobreza, o futebol volta a ser a encardida e lamacenta peladinha de final de semana, como a Gata Borralheira da famosa estorinha criada pelo francês Charles Perraut e imortalizada em inúmeras versões.

O futebol tem as suas fadas-madrinhas, que são os cartolas e patrocinadores. Mas muita gente, sobretudo os esquerdistas, sonham em ver o futebol, o mais capitalista dos esportes, longe das mãos de cartolas e patrocinadores, se esquecendo que sem estes, o futebol perde magia e retorna de forma humilhante às lamacentas várzeas, até que se "case com o príncipe", no caso a mídia corporativa, que na verdade é uma extensão dos braços de cartolas e patrocinadores.

Ou seja, para que o futebol possa ter condições de se tornar atraente, favorecendo a suposta unanimidade - que é um mito: apenas cerca de 75% dos brasileiros assumem o gosto pelo futebol, e apenas 30% destes gostam de forma legítima e dedicada - imposta pela mídia e pelas regras sociais, deve ter enxertos que coloquem na modalidade a pompa que o torna nobre e lindo. Transformar feiosos moleques sujos de lama em verdadeiros príncipes magnatas, nem que tenha que se fazer complexas e demoradas cirurgias plásticas para que percam o aspecto repulsivo.

É praticamente um suicídio querer que cartolas e patrocinadores fiquem longe do futebol. Se esquerdistas odeiam cartolas e patrocinadores, deveriam se acostumar e aprender a amá-los. Não tem jeito, o mais capitalista dos esportes precisa de capitalistas para se tornar hegemônico. Tirar cartolas e patrocinadores é tirar a popularidade, tornando a modalidade um esporte feio e cafona, afastando uma gigantesca parcela do público e cancelando a sua condição de dever cívico-social que dá graça ao futebol.

Portanto, esquerdistas! Façam as pazes com cartolas e patrocinadores, mesmo que estes sejam os mais corruptos e sádicos homens do mundo. Graças a estes "trastes" capitalistas que o futebol é o que é: um esporte que consegue agradar gregos e troianos. Cartolas e patrocinadores são as fadas-madrinhas do futebol. Sem eles, o encanto acaba e vocês terão que encontrar um esporte naturalmente sedutor - como hipismo - para atrair uma imensa multidão e impor uma hegemônica euforia.

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PS: por causa do meu aniversário, na quarta-feira, decidi trocar a publicação deste blogue com a do Sedentário Diário, que extraordinariamente sai na próxima quarta. Na semana posterior, os blogues retomam as seus dias oficiais.

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