sexta-feira, 6 de julho de 2018

Futebol, apenas para quem realmente gosta de futebol

Sonho com o dia em que o futebol deixe de ser coisa de brasileiro e passe a ser coisa de torcedor. Não é porque eu sou brasileiro que tenho que gostar de futebol. Futebol é lazer, é diversão e não interfere no nosso cotidiano. É como um espetáculo de circo: você assiste, dá risada, depois vai embora e tudo continua como era antes.

Mas fomos educados a achar que futebol seria muito mais do que isso. Desinteressados pela lógica, chegamos a acreditar que realmente o sucesso do Brasil em copas traria melhorias para a população. Ninguém saberia explicar como, mas o amor pelo futebol era tanto que a crença que a vitória em campeonatos mundiais sempre foi e ainda é tratada como algo urgente e extremamente necessário.

Berramos, gritamos, gastamos tempo e dinheiro em prol do futebol. demostramos pelo futebol o empenho que nunca demonstramos a favor de nossos direitos. Afinal, "a pátria não é meu país, é a 'seleção'". Melhor: "a 'seleção' é o meu país". Provavelmente com Neymar como presidente deste país fictício com a dimensão de um estádio de futebol.

Aliás, chegamos a abrir mão de direitos em prol do futebol. Posso perder meu salário, minha casa e até a minha mãe, desde que eu tenha o futebol. Em 1970, o campeonato conquistado serviu direitinho de analgésico para as crueldades cometidas durante a ditadura militar. Qualquer dor é amenizada diante de uma vitória no futebol e qualquer autoridade, política ou empresarial, sabe muito bem disso.

Essa adoração pelo futebol, que nos faz dar a importância de uma decisão política a algo que deveria ser apenas uma diversão, lembra muito bem as nossas mais tenras infâncias, quando só queríamos brincar, não gostávamos de estudar e ficávamos zangados quando ganhávamos roupa ao invés de brinquedos. Brincar era tudo o que queríamos. Para essa imensa criança de apenas 518 anos chamada povo brasileiro é assim: primeiro a brincadeira, depois o dever.

Então, valeu a brincadeira? Certamente valeu. Nos divertimos bastante e isolados na ilusão de que o futebol é a nossa pátria, achamos que a vitória na modalidade seria a nossa redenção. Mas ninguém reparou que estamos diante de uma eleição sombria em estado de exceção, com grandes chances de um resultado que possa prejudicar a grande maioria da população, hoje entorpecida pelo futebol. 

A derrota de hoje deveria nos servir de lição. Depois do "vamos brincar de ser patriota durante a copa", o dever de casa que será imposto pela escola da vida será muito mais difícil do que pensávamos. Portanto, a vida segue e se não temos um título a mais na nossa brincadeira favorita, poderemos ter na vida real, se lutarmos. Usemos a tristeza da eliminação como forma de lutarmos por alegria em nosso cotidiano.

Bom, para mim pessoalmente, o sossego voltou. Agora eu posso finalmente cuidar de minha vida no mundo real, sem gritaria, sem feriado forçado e sem gente enchendo o meu saco. Para mim, o sucesso no mundo real é muito mais importante do que na ficção.

As crianças e os adultos com mente de crianças choram a derrota da seleção Incapazes de lutarem pela felicidade no mundo real, esperavam que a felicidade viria de forma abstrata através de um título em um reles divertimento. Que os amarelos saibam perder e percam também a mania de se acharem os heróis da humanidade, só porque jogam no time com a maior torcida do mundo.

A copa acabou para os brasileiros. Alegraremos de outra forma, não dependendo de ilusões para fingirmos que somos um povo feliz.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.