quarta-feira, 10 de abril de 2019

Seria ótimo se esse negócio de "Pátria de Chuteiras" acabasse de uma vez por todas!

Durante muitas e muitas décadas, o brasileiro, imerso numa infantilidade sonhadora, teve como hábito confundir futebol com dever cívico, achando que a "seleção" era o melhor (ou a única coisa boa) que o país poderia oferecer ao mundo. 

Essa ideia irracional de transformar uma forma de lazer em seu maior motivo de orgulho acabou transformando o futebol em uma obrigação cívica-social e acabou criando um preconceito contra quem não curte futebol, além de fazer com que muitas pessoas, sobretudo as mulheres, fingissem gostar de futebol para não ficarem socialmente excluídas.

Mas protestos que aconteceram nas horas dos jogos da Copa das Confederações de 2013, sugeriram uma momentânea transformação ideológica que poderia dar maturidade coletiva à população. Pensando bem, seria agradavelmente surpreendente se víssemos pessoas que preferem ser patriotas de verdade, não esperando que a solução para seus problemas venha da entrada da bola em uma rede. Mas foi apenas algo provisório.

Patriotismo e obrigação tornam o futebol uma coisa muito chata

O futebol é apenas uma forma de diversão. Nada tem de ruim nisso. Aliás, a graça do futebol é justamente não estar preso a obrigações. Aliá-lo a "patriotismo", "orgulho nacional", "dever cívico" e similares, tem feito do futebol um esporte chato, com direito a reportagens e publicidades do tipo "martelada na cabeça", tudo aquilo que nunca fez parte de fato ao futebol. 

A alienação não está no futebol em si, mas no costume doentio de transformá-lo em dever cívico e colocá-lo acima de qualquer coisa da realidade. É achar que a dignidade do país depende das vitórias no futebol, algo que a lógica demonstra ser impossível, por ser o futebol uma mera forma de diversão.

Eu nunca curti futebol, não curto e nem vou curtir, mas nunca odiei. Passei a odiar quando a mídia encaixotou que deveria virar "dever cívico", transformando o futebol em "compromisso irrecusável" e criando todo um aparato publicitário maçante e com altíssima dose de proselitismo.  E é aí que o futebol passou a ser uma coisa muito chata.

Mas isso acabou criando preconceito dos dois lados. Os que gostavam, tinham medo de ser criticados por colocarem uma diversão como obrigação, acima de qualquer coisa. Mesmo sabendo do fato disso ser ridículo, não mudavam de opinião por causa da adesão maciça a mesma ideia, o que favorecia a inclusão na sociedade. Por isso, quem gosta de futebol age de forma defensiva quando conhece alguém que não gosta.

Os que não gostam, por sua vez, reclamam do desprezo quase que total que sofrem pela mídia, por autoridades e por boa parte da sociedade. Como gostar de futebol virou obrigação, quem não gosta virou persona non grata, como se não gostar de futebol fosse um ato de antipatia e de aversão social.

Gostar de futebol é correto. Errado é transformá-lo em dever cívico-social

Mas isso poderá mudar. Redes sociais têm dado, através d grupos de discussão, a oportunidade do envio de mensagens desfazendo esse mito de que futebol é patriotismo, já há muitas décadas arraigado em nossa sociedade. Ainda há quem defenda esta tese, mas quem defende está cada vez mais ridicularizado e sem razão.

Quero deixar claro que é corretíssimo gostar de futebol. É uma diversão sadia, alegre, mas desde que seja despida dessa patriotada que tirou o foco do verdadeiro esporte. Torço para que o futebol retome a sua vocação de puro entretenimento, bem longe dessa mania de transformar em dever cívico, algo que estragou e muito o esporte mais popular do país.

Como males que vem para o bem, toda a priorização do governo para essa copa pelo menos serviu para mostrar a população o que é realmente o verdadeiro patriotismo. E que o verdadeiro orgulho nacional não é demonstrado por meros chutes em uma bola em cima de gramados situados dentro de caríssimos estádios.

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