domingo, 22 de junho de 2014

A escancarada manipulação de resultados em copas

Embora a alucinada população de torcedores não queira nem imaginar esta hipótese, temendo destruir as suas ilusões, a corrupção do futebol-negócio está cada vez mais evidente. Aqueles que ainda acreditam no futebol-arte ainda vivem num mundo da lua e precisam ainda sofrer muito (na vida, não na torcida, tolos!) para amadurecer e entender tudo isso que está acontecendo.

Muitos jornalistas esportivos sérios, os que não são ligados a cartolas (há muitos que são ligados a cartolas, como vários da Rede Globo e da Band, que certamente não vão querer admitir a corrupção no futebol) estão alertando que nesta copa, haverá um festival de manipulações de resultado, com jogadores e juízes pagos para favorecerem determinadas equipes em campo. Seleções fortes estão sendo estranhamente eliminadas nesta copa. E a seleção brasileira poderá ser beneficiada por estas falcatruas, já que especuladores apostaram na vitória dos amarelos na própria copa.

"Seleção" poderá ganhar roubando nesta copa. E não será a primeira vez

Não é a primeira vez e provavelmente não será a última que o futebol mostrará seu show de desonestidade. Copas movimentam muito dinheiro e no caso do Brasil, isso é ampliado de maneira gigantesca, por dois motivos:

- Cartolas brasileiros são muito influentes na FIFA;
- Sendo o objeto de imensurável fanatismo do brasileiro, o futebol é a melhor mordaça para impedir que a população se conscientize e tente acabar com os erros de nossa sociedade, favorecendo quem lucra com esses erros.

A vitória da seleção brasileira em copas é de interesse de todos os poderosos. Sabe-se que enquanto o Brasil for o melhor em uma atividade supérflua, uma mera diversão, não incomodará outras nações. A seleção é campeã 5 vezes e em todas estas 5 vezes a sociedade brasileira se estagnou em muitos aspectos e piorou em outros. O futebol é uma ilusão, uma fuga da realidade que infelizmente é tratada como forma de redenção para a maioria dos que se assumem torcedores.

Atribuir patriotismo ao futebol reforça o favorecimento da corrupção

A confusão entre futebol e patriotismo favorece muito a corrupção no futebol, mantendo a população hipnotizada diante daquilo que ela pensa ser um dever. Transformar o futebol em dever cívico é o mesmo que transformar os lucros do futebol em uma certeza inadiável, já que todos irão dar dinheiro pelo futebol, de qualquer maneira.

Garantir a vitória da seleção brasileira nesta copa, não só satisfaz a apostadores e especuladores, como também à população, pouco interessada na qualidade de vida e que acha que é muito mais confortável fugir dos problemas através de uma ilusão, do que resolvê-los. Corruptos adoram pessoas submissas, pois sabem manipular para que elas façam de tudo para satisfazer interesses mesquinhos.

Por isso mesmo que há toda uma violenta publicidade, altamente persuasiva, estimulando as pessoas a virarem torcedores, a coisa é tanta que até mesmo quem não curte futebol em outros períodos, prefere aderir à enorme correnteza durante a copa. E a caixa registradora dos cartolas e patrocinadores (estes muitos estranhamente de origem estrangeira) vai fazendo seu barulhinho.

Caso vença esta copa, não será a primeira vez que os brasileiros vencem de maneira desonesta. Em 2002 houve indícios fortes, mas pouco comentados, de que a FIFA teria pago para que jogadores das seleções adversárias, jogassem mal para favorecer os brasileiros. Realmente os jogos foram muito estranhos, favorecendo muito mais o ataque dos brasileiros, sempre no campo dos adversários. A seleção francesa adotou a mesma "tática" na copa anterior e isso pode ter servido de inspiração para que os jogadores da pátria  do "jeitinho" também pudessem ganhar facilmente.

Futebol: uma novela com enredo pré-determinado e final feliz

O futebol, queiram ou não queiram, é como uma novela, com roteiros pré determinados. Em muitos casos, o final já é decidido antes mesmo de começar. Quem for mais atento vai perceber que os jogos da seleção brasileira se parecem muito entre si, com doses de suspense e forte emotividade nada racional. Tudo padronizado, como roteiro escrito com antecipação possa ser cumprido.

E em jogos mais importantes, há sempre o empenho de criar um final feliz para os "mocinhos" amarelados. E é aí que os cartolas e patrocinadores entram em campo para que a festa do povo mais festeiro do mundo esteja garantida e para que o show da ilusão possa sempre substituir a realidade que só é feia, cruel e difícil porque a população quer assim.

Até porque, do contrário que diz o hino tão ardorosamente cantado em copas e tão ignorado em outras situações, o brasileiro vive fugindo da luta. E nada como o futebol, sua ilusão maior, para servir de melhor fuga para que os brasileiros possam se esconder dos problemas e injustiças que só crescem a cada ano. Os corruptos gostam de brasileiros assim.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

O grave preconceito contra quem não curte futebol

Quem não aprecia o esporte mais popular do país sofre para se sociabilizar. Vistos como anormais, muitos são tratados com desprezo, mas em alguns casos não-torcedores podem ser confundidos com pessoas de mau caráter ou até com arruaceiros.

A mídia sempre ignorou quem não curte futebol. E não está sendo diferente, mesmo numa época em que nas redes sociais os avessos aos futebol começam das as caras, com críticas inteligentes ao crônico fanatismo do futebol. A mídia sempre fingiu que o futebol fosse uma unanimidade, se esquecendo da existência dos não-torcedores. Como se fosse impossível não gostar de futebol.

E do lado da mídia, as autoridades também entram na onda de ignorar os não-torcedores. Governos se empanham ao máximo para garantir a diversão de quem gosta de futebol. Mas as mesmas autoridades nada fazem para entreter quem não curte, que se sente abandonado por essas autoridades, pela mídia e pela sociedade, sobretudo amigos, e tem que se virar para se divertir e arrumar algum tipo de sossego no meio de tanta baderna. Não-torcedor é que é o verdadeiro sofredor, pois sofre por algo real e não por uma conquista fútil de realização fictícia.

E mais: graças ao episódio do jogador Daniel Alves (sabiamente escalado para a "seleção" por motivos publicitários, capitalizando em cima do caso da banana), vão pipocas muitas campanhas contra o preconceito disso e preconceito daquilo. Mas quanto ao preconceito contra quem não curte futebol, quem fará esta campanha? Quando irão lutar em prol dos direitos de quem não aprecia o futebol?

Futebol, por ser uma distração, um lazer, não pode ser imposto a quem quer que seja. Se algo não dá prazer, porque tem que se gostar? Claro que não vamos obrigar ninguém a deixar de curtir futebol (embora muita gente que não gosta finja gostar em época de copa para se sociabilizar), nem queremos isso (embora quem curte se faz de vítima bem mais do que quem não curte, mesmo com todo a atenção e o de sociedade, mídia e autoridades). Mas porque vocês nunca respeitam o nosso direito de passar bem longe do esporte mais popular do país?

Estamos esperando que alguém se lembre que nós existimos. Estamos cansados de sermos excluídos como brasileiros. Somos tão brasileiros quanto quem curte futebol. Não é porque não curtimos o futebol que temos que ser deserdados da sociedade.

Que venha alguma campanha que possa acabar com o preconceito contra quem não curte futebol. Tão cruel e danosos quanto qualquer forma de preconceito.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Desinteresse pela copa aumenta e preocupa quem lucra com ela

Desde os anos 50, que eu saiba, o futebol tem sido vendido como "dever cívico", embora não passe de uma forma de lazer. Por mais legal que pareça ser, associar uma forma de lazer a assuntos sérios como respeito à pátria soa como sinal de imaturidade. É como medir a qualidade de ensino de uma escola usando as brincadeiras de recreio como parâmetro.

Mas como crianças que estão prestes a largar a chupeta, aumenta cada vez mais o número de brasileiros que não curte futebol, embora até mesmo quem curta já perca o interesse pela copa. Afinal, a "seleção" já ganhou tantos títulos e tantos jogos que já virou rotina ver os amarelados cantando vitória. Perdeu a graça.

Mas esse crescente desinteresse pela copa está preocupando muito as autoridades, empresários e publicitários que sempre se beneficiaram da suposta unanimidade do futebol para lucrar muito dinheiro. Afinal quando se transforma algo em obrigação, consequentemente você estará obrigando alguém a pagar por esta obrigação. Trocando em miúdos: lucro mais que garantido, pois torcedores se sentem obrigados a pagar por  qualquer quinquilharia temática sobre futebol, por motivos de "dever cívico".

O fim dessa obrigação, por cancelar estes lucros garantidos, tem feito com que os envolvidos reclamem sobre a falta de interesse. Para quem é ingênuo, soa como desprezo pela nação, mas na prática é o contrário: a população percebeu que o futebol é somente um lazer, que só deve ser priorizado em tempos de prosperidade plena (uma utopia, se observarmos a situação de nossa sociedade).

Já percebe-se uma mudança na publicidade. As propagandas ufanistas ainda continuam, mas se tornam raras. Há empresas indispostas a investir em produtos da copa. Ainda existem condomínios decorando com as cores da copa, mas não é mais a maioria. Telejornais já não se transformam mais em edições extra dos programas esportivos de inicio de tarde. 

Tudo mudou? O brasileiro amadureceu? Difícil dizer, mas nota-se o começo de uma mudança de hábitos. Esperamos que o futebol passe a ser visto como uma mera diversão, válida, mas nunca urgente. Somente a baixa auto-estima pode fazer com que uma sociedade coloque uma forma de diversão como "símbolo máximo de civismo". Tolice. Futebol é muito mais legal se for tratado como uma brincadeira, pois foi para isso que ele foi criado.

Que todos que esperavam a utópica unanimidade para lucrar com o futebol que aprendam a explorar outros meios de lucro financeiro. Dói saber que as "crianças" vão deixando as suas "chupetas" e sua candura ingênua, mas é saudável vê-las se preocupando bem mais em conhecer e observar as outras coisas que estão ao seu redor. 

Pois o Brasil é grande e por ser grande, não deve ser representado por uma coisa só. Temos futebol, mas temos muito mais coisas, um gigantesco leque de diversidade que merecia mais atenção.

Se temos diversidade em tudo que existe em nosso país, porque não haver diversidade em nossa forma de divertir, através de outras modalidades esportivas e outros meios de se entreter?

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Autoridades vão continuar ignorando quem não curte futebol

Vivemos numa democracia de maioria. Essa falácia de "país de todos" é conversa para boi dormir. Uma mentira que é desmascarada com o mínimo de observação mais simples.

Mesmo com a mídia e publicidade tendo que reconhecer a "novidade" de existência dos não-torcedores (até o ano passado, pensava-se que o futebol no Brasil era uma unanimidade - e trabalhava-se com frequência se baseando nessa ideia absurda de que brasileiro e torcedor de futebol eram "sinônimos"), governos federais, estaduais e municipais prometem ignorar solenemente quem não curte futebol. 

Nenhuma medida em prol dos não-torcedores está sendo tomada e em mais uma copa será ainda no esquema "não gostou, se vire para fugir da copa!", obrigando quem não curte futebol a se virar para se divertir ou para fugir dos berros ensurdecedores de torcedores alvoroçados, loucos pela única oportunidade que a sociedade permite para "soltar seus demônios".

Em mais uma copa, os torcedores ainda serão a prioridade máxima das autoridades, pois até prova o contrário, eles são maioria e em número suficiente para colocar os políticos em seus cargos. Por isso a não necessidade de agradar essa esmagada "minoria" de não torcedores. Se os não torcedores não votarem, não farão falta. Vamos agradar a imensa maioria, pois é ele quem elege, não é mesmo?

Mas esperem um dia a humanidade se amadurecer e perder a mania de colocar as brincadeiras acima de coisas mais relevantes. Se já foi novidade a existência dessa gente conscientizada que quer mostrar que futebol não tem valor, aumenta a cada dia a quantidade de pessoas que se assumem anti-futebol. Aí, agradar torcedores, ignorando um resto, passará a ser um erro fatal que poderá tirar os políticos do poder. Pensem nisso.

Nesta copa teremos que nos virar para fugir dela. Mas nas próximas poderemos precisar de ajuda. Quem se habilita?

domingo, 11 de maio de 2014

“A Copa do Mundo contribuiu para o aumento da desigualdade na sociedade sul-africana”

Por André Antunes, no Brasil de Fato

O sindicalista local Eddie Cottle fala sobre o legado que a Copa de 2010 deixou para o país que, de acordo com ele, agiu como fiador da acumulação de capital para satisfazer a ganância da Fifa e de seus parceiros comerciais.

No início de fevereiro, jornais da grande mídia noticiaram que a Presidência da República, preocupada com a possibilidade de que ocorram protestos durante a Copa do Mundo, em junho – e com seus eventuais reflexos nas eleições de outubro – prepara uma campanha para tentar convencer a população dos benefícios da Copa para o país. Mas é pouco provável que a campanha adote como estratégia mirar-se no exemplo da África do Sul, que sediou o evento há quatro anos. Isso porque, como afirma o sindicalista sul-africano Eddie Cottle, diretor de políticas e de campanhas para a África e Oriente Médio da Internacional dos Trabalhadores da Construção e da Madeira (BWI, na sigla em inglês), ao contrário do que foi prometido antes do evento, a Copa do Mundo foi um desastre para o país africano, acarretando um rombo bilionário nos cofres públicos, superexploração de trabalhadores e aumento da desigualdade social. Nesta entrevista, Eddie fala sobre o verdadeiro legado que a Copa de 2010 deixou para os sul-africanos, tema de seu livro South Africa’s World Cup: A Legacy For Whom? (em português, Copa do Mundo da África do Sul: legado para quem?).

Brasil de Fato – O termo “legado” é usado frequentemente para justificar os altos investimentos em infraestrutura nas cidades-sede da Copa do Mundo. Qual foi o legado da Copa de 2010 para a África do Sul?

Eddie Cottle – Quando o termo ‘legado’ é usado pelos Comitês das Propostas, Fifa, Comitês Organizadores Locais, autoridades governamentais e think tanks econômicos tradicionais, presume- se ser inteiramente positivo, como se os benefícios do crescimento econômico e da reordenação urbana fluíssem naturalmente para as comunidades. São mentiras deslavadas, envoltas numa retórica de desenvolvimento.

O documento da proposta da África do Sul para sediar a Copa, um documento secreto financiado por multinacionais com interesse direto nos jogos, continha cálculos falhos com base em guess-estimates [numa tradução livre, estimativas baseadas em adivinhação], que não conseguem contabilizar aumentos de custos e muito menos as receitas para o Estado e para a sociedade.

A estimativa de custo inicial foi calculada em 2,3 bilhões de randes [moeda sul-africana] a serem pagos pelo governo sul-africano, em grande parte para financiar os estádios e infraestrutura necessária. Ao mesmo tempo, projetou-se que a África do Sul iria ter um adicional de 7,2 bilhões de grandes em receitas tributárias relacionadas ao evento. No entanto, em 2010 estimou-se que o custo (e é provável que seja muito mais elevado) para o governo da África do Sul foi de 39,3 bilhões de randes – um aumento de 1.709% em relação à estimativa original, uma enorme perda financeira para o país.

Após a Copa, houve silêncio total sobre as receitas fiscais do governo. A exceção foi a afirmação feita pela South African Revenue Services [a Receita Federal sul-africana] de que a Copa do Mundo nunca foi pensada como uma forma de angariar receitas. O governo sul-africano agiu como fiador da acumulação de capital para satisfazer a ganância da Fifa e seus parceiros comerciais. No fim das contas, a Fifa saiu com um lucro de 3,4 bilhões de dólares, livre de impostos, o maior da história da Copa do Mundo. Sediar a Copa do Mundo foi uma enorme perda financeira para a África do Sul.

E para as construtoras envolvidas nas obras da Copa?

Apesar da crise econômica mundial de 2008-2009, as cinco maiores empresas de construção da África do Sul se beneficiaram bastante com os projetos de infraestrutura da Copa do Mundo e tiveram um lucro médio de 100% de 2005 a 2009, depois de sofrerem perdas substanciais até 2004. A remuneração de CEOs [diretor-executivo de uma empresa ou instituição], em média, subiu mais de 200% desde 2004. A brecha salarial no setor da construção incrementou-se de 166 em 2004 para 285 em 2009. Os números mostram quantos anos um trabalhador teria que trabalhar para receber o que um CEO leva para casa num ano, em média. A Copa do Mundo contribuiu para o aumento da desigualdade na sociedade sul-africana.

Que impacto o evento teve na geração de empregos no país?

Com uma taxa de desemprego oficial de 24%, um grande exército de reserva de mão de obra (incluindo desempregados, informais, trabalhadores autônomos e migrantes) foi absorvido pelo mercado de trabalho para a produção do espetáculo esportivo e foram demitidos às vésperas do evento, contribuindo para a perda de 627 mil postos de trabalho na economia como um todo.

No setor da construção,foram contratados 1,117 milhões de trabalhadores nos setores formal e informal em 2009; 1,006 milhões estavam empregados quando começou a Copa do Mundo na África do Sul, uma perda de 110 mil empregos na construção, no período. No quarto trimestre de 2009, a taxa oficial de desemprego era de 24,3%, e em junho de 2010, tinha atingido 25,2%.

Já no setor de turismo e indústrias correlatas, houve um crescimento na contribuição para o Produto Interno Bruto nos períodos antes e depois da Copa do Mundo, passando de 67,14 milhões de randes em 2008 para 84,3 milhões de randes em 2011. Mas se compararmos o número de empregados diretamente no setor de turismo antes da Copa do Mundo, em 2008, que foi de 606.934 trabalhadores, com os três anos imediatamente anterior (2009), durante (2010) e após a Copa do Mundo (2011), vemos que o emprego foi na realidade mais baixo, apesar do aumento nos investimentos, mesmo durante o mês em que a Copa do Mundo aconteceu. Havia 52.944 trabalhadores a menos em 2009, 39.556 a menos em 2010 e 8.502 trabalhadores a menos empregados no setor turismo em 2011 do que havia em 2008. Ou seja, o efeito multiplicador de emprego projetado pela Grant Thornton (um think tank econômico internacional) desmoronou, porque, em vez de um aumento do emprego através de maiores investimentos, o que houve foi uma diminuição no emprego direto.

O que isso sugere é que houve um aumento da taxa de exploração dos trabalhadores empregados nas indústrias do turismo e afins, que tiveram que trabalhar mais horas ou a um ritmo de trabalho maior – ou ambos – num contexto de aumento do fluxo de turistas para a África do Sul durante a Copa.

A Copa do Mundo na verdade é um eufemismo para o que eu tenho chamado de “complexo de acumulação esportiva da Fifa”, que encabeça a exploração das nações anfitriãs e seus trabalhadores. A Fifa dirige uma classe comercial globalizada que coloca pressões significativas sobre os produtores, que por sua vez se dedicam à repressão salarial agressiva dos trabalhadores. Na África do Sul, por exemplo, Zakumi, o mascote da Copa, foi produzido por trabalhadores chineses trabalhando em turnos de 13 horas, que receberam apenas 3 dólares por dia.

No Brasil, tivemos várias greves durante a construção de estádios para a Copa do Mundo. Isso se deu também na África do Sul?

A primeira greve registrada em uma construção da Copa do Mundo começou no Estádio Green Point, em 27 de agosto de 2007, iniciando uma onda de greves que resultou em acordos com os empregadores por todo o país. Em 8 de julho de 2009, 70 mil trabalhadores da construção civil fizeram uma greve nacional por uma semana, e isso foi sem precedentes e significativo em vários aspectos. Não só foi esta a primeira greve nacional de trabalhadores da construção civil nas obras da Copa do Mundo mas também houve uma unidade apresentada pelos trabalhadores e sindicatos em um setor composto por vários sindicatos concorrentes de três federações com bases ideológicas diferentes. Os sindicatos recrutaram 27.731 trabalhadores no período, aumentando a sindicalização em 39,4 % de 2006 para 2009.

No Brasil, de fevereiro de 2011 a abril de 2013, 25 greves foram identificadas, envolvendo cerca de 30 mil trabalhadores nos estádios da Copa do Mundo. No geral, a onda de greves foi um sucesso, uma vez que conquistou a melhoria de salários e condições de trabalho para trabalhadores da construção civil do Brasil e reforçou a confiança sindical. As conquistas, variando um pouco em diferentes locais, incluíram um aumento de 30% a 70% no vale-refeição, aumento no pagamento de horas extras entre 60% e 85% nos dias de semana e 100% nos finais de semana, subsídios de transporte, seguro de saúde e bônus. Estas greves não só foram localizadas nas obras da Copa do Mundo, mas também se espalharam para o resto do setor da construção. Em 2012, estima-se que mais de 500 mil trabalhadores entraram em greve por melhores condições de trabalho nos canteiros de obras em nível nacional.

Mas devido ao atraso nos projetos da Copa do Mundo, as empreiteiras estão pressionando os trabalhadores cada vez mais para acelerarem a produção e a entrega dos projetos. Já aconteceram vários acidentes fatais [Foram sete no total: duas mortes em São Paulo, uma em Brasília e quatro em Manaus]. O aumento da taxa de exploração através do aumento do ritmo de trabalho, acordos de horas extras e produtividade, significa que os trabalhadores terão que cumprir ainda com os prazos para entrega da infraestrutura e não receberão a remuneração completa porque, na prática, haverá uma redução no período de emprego. Enquanto isso, as empreiteiras colherão os megalucros do valor total do projeto a preços inflados, apesar de o período de produção da infraestrutura da Copa ser mais curto. No Brasil, como na África do Sul, o efeito multiplicador simplesmente falha na transformação do investimento feito em empregos criados e a redistribuição da renda, porque o enorme superávit de fundos públicos é absorvido pela destrutiva acumulação privada.

Qual é a situação atual dos estádios que foram construídos para a Copa do Mundo da África do Sul?

Como previsto, nenhum dos estádios da Copa do Mundo é autossustentável, o que significou um aumento nos impostos municipais e mais recursos do orçamento nacional foram solicitados pelos administradores dos estádios para gerenciá-los. Com isso há menos recursos disponíveis para a área social. Este é um problema sério que o Brasil vai ter de enfrentar em breve. Esse problema tem sido discutido muito na mídia e no parlamento, mas a questão da demolição de alguns dos estádios foi evitada, uma vez que seria um grande constrangimento político para o Congresso Nacional Africano, o partido no poder na África do Sul.

O governo sul-africano chegou a abrir uma investigação sobre a formação de cartéis de empresas de construção envolvidas nas obras da Copa de 2010. Qual foi o resultado dessas investigações?

Há muitas evidências de que o setor da construção está propenso a formar cartéis. O relatório de 2008 do Comitê de Concorrência da Organização para a Cooperação Econômica e Desenvolvimento (OCDE) sobre o setor da construção chegou a essa conclusão. Entre os 19 países incluídos nesta mesa-redonda da OCDE, a África do Sul apresentou o seu relatório sobre os enormes aumentos dos estádios da Copa do Mundo de 2010, sendo que, na época, havia suspeitas de licitações fraudulentas. Em 17 de julho de 2013, no tribunal da Comissão de Concorrência da África do Sul foi apresentada uma estimativa conservadora de que as empresas de construção obtiveram “lucros indevidos” de 476 milhões de dólares com as obras para a Copa do Mundo de 2010 e outros projetos. Elas foram consequentemente multadas num total de 152 milhões de dólares. As empresas de construção que não concordaram com o acordo agora correm risco de serem processadas.

E pelo que você vem acompanhando no Brasil, há base para se abrir uma investigação sobre a formação de cartéis de construtoras para as obras da Copa 2014?

Um claro indicador de atividade de cartel são os enormes aumentos de custos em relação às estimativas originais. A fonte mais confiável para as estimativas de custos originais de cada um dos estádios é o documento da candidatura do Brasil, que não é tornado público. No entanto, uma vez que o documento da candidatura foi submetido à Fifa até 31 de julho de 2007 e a Fifa realizou sua visita de inspeção em 23 de agosto de 2007, é razoável supor que o valor de 1,1 bilhão dólares para todos os estádios que está neste relatório reflete os números originais do documento de candidatura. O relatório de inspeção da Fifa de 2007, portanto, subestimou bastante o custo para os estádios da Copa do Mundo no Brasil, que aumentou 327% até 2013, atingindo 3,6 bilhões de dólares. O custo dos estádios de Brasília e do Rio de Janeiro mais do que duplicou desde 2010 e totalizam 1,3 bilhões de dólares. Só esses dois estádios, portanto, custam mais do que a estimativa original para todos os estádios. Ao ritmo atual de aumentos dos custos, é provável que a Copa do Mundo do Brasil seja a mais cara da história. Há motivos suficientes para o governo brasileiro abrir uma investigação completa sobre as operações de um cartel de construção: o Relatório do Comitê de Concorrência da OCDE, a evidência do Relatório da Comissão de Concorrência da África do Sul, especialmente em relação à Copa do Mundo da Fifa 2010, e a dramática escalada de custos dos estádios no Brasil quando comparados com o Relatório da Equipe Inspeção da Fifa em 2007.

Na sua análise, que mudanças precisam ser feitas para que a preparação para grandes eventos como a Copa do Mundo não implique os problemas que foram registrados na África do Sul e agora no Brasil?

A Copa do Mundo é o principal motor de um complexo de acumulação capitalista no esporte. Todos os principais problemas observados na preparação são resultados diretos da privatização do jogo. Qualquer mudança real só pode vir através de uma plataforma para desenvolver um modelo público ou de nacionalização do jogo a longo prazo. No curto prazo, a sociedade civil tem de fazer alianças e garantir que os trabalhadores estejam na liderança dessas lutas, pois são eles que têm sua força de trabalho explorada e suportam o peso de condições precárias e inseguras de trabalho. As lutas atuais dos brasileiros são muito bem-vindas, mas exigem níveis mais profundos de coordenação, incluindo a expansão das formas de resistência para incluir boicotes de determinados produtos ou até mesmo de jogos sempre que possível.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Só os jogadores de futebol merecem ser protegidos de manifestações de racismo?

Uma gigantesca campanha contra o racismo no futebol tem sido feita. Nada mais justo, pois por mais cretinos que sejam os jogadores, nunca se deve usar a etnia para justificar isso. Até porque jogadores de qualquer raça são cretinos do mesmo jeito. E fora do futebol, muitos negros, índios e mestiços (olha eu aí - eu sou mestiço!) tem contribuído e muito para colocar inteligência em nossa sociedade.

Mas porque só no futebol, as campanhas anti-racismo tem uma adesão tão grande da sociedade? A intenção na verdade é defender os n~]ao-brancos ou é mesmo defender os jogadores de futebol? Do jeito que a campanha está sendo feita, a impressão é que a segunda alternativa que está correta, pois não se vê algo com a mesma intensidade em outras manifestações não só anti-racismo, mas anti-preconceito.

E a campanha contra o preconceito contra quem não curte futebol? Alguém já parou para pensar que quem assume que detesta futebol esbarra em limites sociais? Que não somente é obrigado a aguentar berros de multidões bem do lado de suas residências como corre o risco de perder empregos, demitidos por chefes ignorantes que acham que gostar de futebol é "saber trabalhar em equipe"? Contra esse tipo de preconceito ninguém até agora teve a iniciativa de lutar.

Não defendo que jogadores de futebol sofram preconceitos. Eu já falei no início desta postagem que a vulgaridade e a futilidade dos jogadores nada tem a ver com suas etnias. Mas é evidente que todo o foco das campanhas anti-preconceito está sendo direcionada a eles, como se somente eles, tidos como "heróis máximos da humanidade" só porque chutam uma bolinha, tenham direito a esse respeito.

Como se eles ganhassem um tipo de "imunidade parlamentar" por causa da suposta autoridade que lhes é atribuída por terem zilhões de "súditos" alienados que pensam que o futebol melhora as vidas de seus admiradores. Não é, pois jogadores são tão úteis à sociedade quanto palhaços de circo. E essa declaração nunca é preconceituosa, se prestarmos atenção ao caráter exclusivamente lúdico do futebol. Até porque a função deles é somente divertir. 

Somos contra qualquer tipo de preconceito. Não vamos usar a etnia para criticar jogadores. Talvez a péssima escolaridade que possuem mereça ser criticada, mas junto com o estimulo à escolarização. Que jogadores possam estudar e se lembrar de que, sendo excessivamente influentes para a sociedade, tem a obrigação de estimular o intelecto, mesmo que isso nada tenha a ver coma profissão que atuam. Ser influente acrescenta novas responsabilidades que possam ser úteis à humanidade, não é, Neymar?

E lembremos dos não-brancos também fora do futebol. Conheço inclusive negros que detestam futebol e que, mesmo apoiando esta campanha, se sentem um pouco abandonados pelo foco que é direcionado apenas aos jogadores. Os não-brancos fora do futebol também merecem ser respeitados. Talvez ainda mais que os lúdicos jogadores, pois muitos estão em setores ainda mais úteis da sociedade.

E que o preconceito contra quem não curte futebol possa ser lembrado. Pois condenar o racismo no futebol e manter o preconceito contra quem não curte futebol, através do desprezo, xingamento e até medidas violentas como agressão física e demissões injustas, é certamente uma contradição que anula qualquer campanha anti-racista. Alguém que se declara anti-racista mas pratica outros tipos de preconceito, certamente anula qualquer tipo de militância. Certamente deve estar mentindo.

domingo, 27 de abril de 2014

Postagens anti-futebol no Facebook fazem publicitários moderarem em propagandas futebolísticas

Nos anos das copas anteriores, era muito comum nos primeiros seis meses a TV ser invadida por uma avalanche de propagandas onde o futebol era o principal assunto, mesmo que o produto a ser vendido nada tenha a ver com a famosa modalidade esportiva. Era um pesadelo ligar a TV para quem não curte futebol: uma overdose de irritar o mais tranquilo dos monges.

Mas este ano, nota-se que o intervalo televisivo se tornou mais equilibrado. Ainda há propagandas que mencionam o futebol, de maneira bem fanática e persuasiva. Mas elas se tornaram minoria nos intervalos. Os publicitários preferiram moderar na persuasão futebolística dos anos de copa. O que houve para que os publicitários freassem na sua capacidade de alienar a população?

Quem não usa internet deve ter estranhado, pois desconhece o possível motivo que fez com que as propagandas pró-copa se minguassem. Mas quem usa internet, sobretudo quem lê blogues e frequenta redes sociais, percebeu o motivo dessa contenção publicitária.

A internet se mostrou o único meio de comunicação realmente democrático que existe. Aqui, pessoas como eu e você podem escrever sobre o que pensa, sem esperar que aquele jornalista ou celebridade fale a ideia que só você defende, algo que na verdade nunca acontece, principalmente na TV aberta.

E é justamente na internet que estão aparecendo debates e textos que tentam devolver o caráter puramente lúdico ao futebol, difundido na grande mídia durante muitas décadas como se fosse um dever cívico, algo que nada tem a ver com a modalidade esportiva.

A publicidade sempre defendeu esse ponto de vista equivocado por acreditar que transformando em "dever cívico", estariam obrigando a população a comprar os produtos relacionados com o futebol, transformando a modalidade em fonte garantida de lucro. Uma grande galinha dos ovos de ouro cuja importância deveria, segundo os publicitários, ser aumentada sem qualquer tipo  de limitação.

Mas o plano deles caiu por terra, graças a descoberta de que o Brasil, além de possuir uma grande número de pessoas que não curtem futebol, esse número cresce cada vez mais, para a surpresa dos que dependem dos lucros futebolísticos.

E a campanha doentia que tenta insistir com a associação entre futebol e patriotismo, parece repelir cada vez mais as pessoas, pois além da associação entre uma forma de lazer e civismo ser evidentemente ridícula, toda a campanha feita para promover essa associação é ainda mais patética e surreal, transformando meros divertidores em "heróis da pátria". Como se a vitória da "seleção" pudesse trazer dignidade para o país (o que fatos reais provam justamente ser o oposto).

Com medo de estar se agarrando a algo claramente ridículo, os publicitários optaram por moderar suas propagandas pró-copa.  Ainda não há campanha pedindo respeito a quem não curte futebol. Mas só em eliminar a avalanche chata das propagandas futebolísticas já é um bom avanço. Sinal de que o Brasil demonstra sinais de que um dia irá acordar.

Vini Jr, Racismo e a hipocrisia da Classe Média brasileira

O assunto desta segunda feira com certeza foi o inaceitável caso de racismo sofrido pelo jogador Vinicius Júnior, o Vini, durante um jogo de...