quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Falta seriedade nas críticas contra a hegemonia futebolística

Um pais que deveria se destacar pela diversidade adere a um monopólio quando o assunto é lazer esportivo. Brasileiros priorizam o futebol, arraigado como forma de auto-afirmação do brasileiro. A coisa chega a tal ponto que o gosto pelo futebol chega a ser regra de etiqueta. No Rio de Janeiro, por exemplo, é uma ofensa assumir publicamente o desprezo pelo futebol.

Em tese, ninguém é obrigado a gostar de futebol. Mas na prática todos são realmente obrigados. Assumir o desgosto pela modalidade esportiva incomoda os outros e gera intolerância. Uma reação similar a que os cristãos tem ao conhecer um ateu. Os não-torcedores menos corajosos invetam que gostam e até escolhem um dos times para fingir a torcida. Mas seria melhor que isso não fosse necessário e que o desprezo pelo futebol fosse respeitado como um direito.

Mas do lado dos que não curtem futebol, fica faltando uma postura mais responsável na reivindicação do direito de não gostar de futebol. Aqueles que assumem não gostar de futebol agem como se estivessem tentando aceitar uma derrota e se isolando como medida para tentar fugir de uma gigantesca injustiça social que exclui aqueles que não querem participar da "grande brincadeira".

Falta seriedade nos fóruns anti-futebol. Blogues que criticam o fanatismo ou foram extintos, ou estão inativos ou não falam mais no assunto. Nos fóruns, ao invés de textos inteligentes e críticas consistentes, há um desfile de xingações, de postagens que se limitam a redundância de ficar reafirmando sua aversão ao futebol e comentário rasos que não conseguiriam convencer os que acreditam no futebol como item indispensável à vida do povo brasileiro. E por isso tudo continua como está, com torcedores e não-torcedores não se levando a sério mutuamente e trocando ofensas e acusações.

O futebol é uma forma de lazer. E como tal é um item supérfluo. Mas tradicionalmente sua hiper-valorização o transformou em uma desculpa para tentar elevar a auto-estima dos brasileiros, acostumados com desgraças e derrotas em setores mais essenciais do cotidiano. É salutar para mutos ingênuos acreditar que pelo menos no futebol somos os melhores*, mesmo isso sendo uma farsa.

Lutar contra a correnteza dos que curtem o futebol (incluindo aqueles que fingem curtir por motivos sociais, como fazem a maioria das mulheres) é complicado. Penso que deveríamos levar a sério os fóruns que criticam  fanatismo do futebol e exigir da opinião pública (regulada pela mídia) um respeito a quem não curte e a consagração da diversidade de gostos pelo esporte. 

Futebol não é a única modalidade e creio que monopólios e hegemonias não combinam com a cultura brasileira, que nasceu para a diversidade. Não gostar de futebol é um direito e dane-se se o futebol e o nosso maior fonte de confraternização. Uma pessoa nunca deve ser valorizada pelos seus gostos e sim pela maneira de como enxerga a vida. Um bandido que gosta de futebol não pode ser melhor tratado do que um cidadão honesto que detesta futebol.

Agora quanto aos que detestam futebol, mas não sabem o que fazer nos fóruns: vamos elevar o nível dos nossos debates. Vamos mostrar a esses monopolistas que somos inteligentes e altruístas. Que ninguém aqui é terrorista em luta pelo fim do futebol. Queremos que o futebol exista, só não queremos que ele se monopolize e se torne uma obrigação. Tudo que queremos mesmo e passar bem longe do futebol. Não nos comparem aos hooligans, que adoram futebol, mas gostam de associá-lo a violência (talvez pelo excesso de testosterona, creio).

E gente, vamos melhorar nossa participação nos fóruns, criar e manter novos blogues. Continuarmos agindo sem levar a sério nossa aversão ao futebol é assumir a derrota diante da imensa massa que nos obriga a gostar daquilo que para nós não oferece o menor prazer. 

Se nos achamos mais inteligentes que os amantes do esporte praticado por trogloditas analfabetos, vamos provar que nós somos realmente inteligentes. Em caso contrário, alguém com poder de influência¹ vai conseguir convencer a maioria de que futebol e monopólio, e obrigação e quem não gosta que saia do Brasil.

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*OBS: A ideia de que somos os "melhores no futebol mundial" é um mito falso plantado pela mídia. Não somos os melhores e nunca fomos. Só sabemos aproveitar as oportunidades. Fatos comprovam que o "jeitinho brasileiro" também aparece no futebol. Ou seja, também somos desonestos quando jogamos futebol. Curiosamente as melhores fases do Brasil no futebol coincidem com o bom êxito de cartolas corruptos. Mas isso fica aqui entre nós.

¹OBS: Bom lembrar que para a mídia, incluindo a opinião de pessoas famosas com alto poder de influência, o futebol é uma unanimidade, "brasileiro" é sinônimos de "torcedor de futebol" e quem não curte futebol não existe ou "não sabe viver em sociedade", "ofendendo a maioria das pessoas". Acreditem, pensamentos como esses estão arraigados em nossa cultura, sendo difíceis de serem desmentidos.

domingo, 11 de outubro de 2015

Se ninguém fosse obrigado a gostar de futebol, torcedores não se incomodariam em saber que há gente que não curte a modalidade

Falam tanto que ninguém é obrigado a gostar de futebol, que nossa sociedade é democrática, etc. A lei diz que as autoridades devem respeitar a liberdade do cidadão. Mas é tudo teoria! Tudo teoria! Na prática a coisa acontece bem ao contrário, e por mais que torcedores posem de vítimas, desejando proteger seu direito de gostar de futebol, a corda sempre arrebenta para o lado dos que não curtem.

Não adianta tentar criar uma democracia de fachada. Pessoas que assumem publicamente que não curtem futebol são marginalizadas. Isso quando não são humilhadas ou perdem direitos por isso. Na prática, futebol é sim obrigação por se confundir com o civismo, com as regras sociais e com os direitos fundamentais do cidadão. Mas de fato, futebol não vai além de um lazer supérfluo e como tal nunca deve ser imposto como obrigação.

Mas não venham os torcedores posarem de bonzinhos. Sei que tudo é feito para que a imagem de "normalidade" e de "cordialidade" seja associado a quem gosta de futebol. Normal é quem gosta de futebol. Quem não gosta é desequilibrado, maluco, malvado, uma escória social. Chegam a inventar que os hooligans (torcedores fanáticos que usam a agressividade como meio de demonstrar seu "amor" por um time) detestam futebol, para poder colocar a culpa dos danos nos cidadãos que preferem ter outros hobbies bem diferentes do lazer futebolístico. 

Se não gostamos de futebol, porque ficaríamos perdendo tempo em estragar a diversão alheia? Fiquem tranquilos, torcedores, não somos como os hooligans. Sempre preferimos ficar bem longe daquilo que desprezamos e bem longe continuaremos a ficar.

Estranho que quem age como loucos são os torcedores, berrando fora de hora, estragando o sossego alheio, larga coisas importantes por causa de um joguinho, usa argumentos sem pé nem cabeça para tentar explicar porque o futebol é tao popular, entre outras loucuras. Mas loucura cometida por milhões de loucos vira normalidade. A minoria normal é que é considerada "louca".

E como "loucos" somos excluídos. Pessoas se incomodam como fato de não curtirmos futebol. Mesmo as pessoas que nos querem bem  sempre aproveitam a oportunidade de dar indiretas dando a entender que"não gostar de futebol" é um defeito. Se recusar a seguir a manada submissa incomoda muita gente.

Eu quero dizer a vocês, torcedores, que vocês não são coitados. Não há como tirar de vocês esse vício de cerca de um século. Vocês estão protegidos por autoridades, por toda a mídia e pelas regras sociais. Mesmo que vocês temam as críticas, vocês estarão sempre em vantagem.

Quem tem que exigir respeito não são vocês. O respeito que vocês recebem é farto e vasto. Nós, que não curtimos futebol é que temos que exigir respeito. Sabemos que vivemos em um país que não aceita as diferenças e acha que a submissão social é uma virtude. Mas está mais do que na hora de aceitar que nem todos tem a obrigação de gostar do que a maioria gosta. 

E parem de fingir que vocês respeitam as diferenças! Está mais do que na cara que a ideia de que o futebol não seja uma unanimidade lhes incomoda bem mais do que os problemas cotidianos!

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Necessário que abandonemos a infância

A pior derrota sofrida pela "seleção" na última copa, logo em casa, além da derrota de ontem para o Chile (a mesma equipe paga para faltar nas eliminatórias de 2001, favorecendo o fraudulento pentacampeonato dos brasileiros) servem de alerta: a infância dos brasileiros pode estar acabando. Talvez estejamos entrando na adolescência coletiva.

Muitas décadas acreditamos que um supérfluo seria a nossa maior necessidade, por supostamente nos trazer a ilusão da dignidade. Fomos "educados" a acreditar que sermos melhores no futebol nos traria orgulho e serviria como compensação para a realidade problemática que sempre marcou nosso cotidiano. 

Futebol sempre foi o nosso maior ópio e como tal era o melhor narcótico a nos tirar dessa realidade, mesmo momentaneamente. Até porque é muito mais fácil fugir da realidade do que enfrentá-la. Mas a fuga cobra seu preço e a realidade segue com seus problemas intactos sem que a gente perceba, pois sempre estivemos muito concentrados com o balançar das redes.

Agimos sempre como crianças que colocam as brincadeiras acima dos assuntos sérios. Futebol sempre foi a nossa prioridade. Somos o único povo a parar um país todo por causa de um mísero supérfluo que nunca nos trouxe benefício. Cultuamos os jogadores de futebol que não passam de uns pobretões que enriqueceram de uma hora a outra sem pegar em um só livro, servindo de péssimos exemplos de que estudar não vale a pena. Pelo menos não vale para o mercado de trabalho.

Falando neles, eu questiono se eles seriam capazes de resolver a crise que o país se encontra. Seria uma ótima oportunidade deles porem em prática o rótulo insistentemente recebido de "heróis da pátria". Ricos até não poderem mais, os jogadores da "seleção" seriam muito mais heroicos dando uma utilização mais justa ao seu dinheiro ganho sem o esforço escolar do que chutando uma bolinha em uma rede para iludir 200 milhões de otários.

Está mais do que na hora desse longuíssimo baile de Cinderela acabar. Temos que mudar nossos gostos, diversificar nossos interesses. O Brasil é o país da diversidade e qualquer tipo de monopólio ou padronização é nociva para a população. Não dá para milhões e milhões de pessoas com diversas mentalidades ficarem reféns de UMA ÚNICA forma de lazer. Um único supérfluo que só serve para nos iludir, colocando dignidade onde não deveria ter.

Tomara que a "seleção" não vá para esta copa* . Caso perca as eliminatórias, um fato histórico, pois seria a primeira copa sem a participação dos brasileiros. Quem gosta de se iludir está morrendo de medo dessa hipótese. Mas fiquem calmos. A realidade é dura, mas é real. De que adianta 90 minutos de glória quando o tempo restante é de desgraça e sofrimento?

Deveríamos nos amadurecer e largar a nossa maior chupeta. A puberdade intelectual pede passagem. Fiquem com a certeza de que ninguém morrerá se a "seleção" não for para a próxima copa. A não ser que morra se suicidando.

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*NOTA:  A possibilidade de não ir a copa incomoda os poderosos que patrocinam o futebol brasileiro. Sabemos que patrocinadores são capazes de pagar para que alguma fraude favoreça o Brasil, pois muito dinheiro é gerado quando a "seleção" amarelada está em campo. Faltar a uma copa seria uma heresia imperdoável e grande prejuízo financeiro para os donos da grana.

Mas do outro lado, lembremos que os "midas" da CBF, como Marin e Teixeira, estão presos ou sem moral para influenciar decisões. Além disso, patrocinadores tradicionais da "seleção" estão em maus lençóis: a Volkswagen envolvida em escândalo de fraude de tecnologia, a McDonalds praticando escravidão e a Nike mexendo nos resultados dos jogos. Fora o que não se sabe das outras patrocinadoras. 

A derrota sofrida na última copa, a pior desde que a "seleção" foi fundada, pode ter sido um sintoma do enfraquecimento da influência de cartolas e de patrocinadores . O que significa que a "seleção" foi "liberada" para perder honestamente. 

Torcemos que estes escândalos façam a "seleção" perder, acabando com o falso mito de "melhor futebol do mundo", que como poucos sabem, coincidiu com a influência de cartolas brasileiros na FIFA, o que dá margem para uma surpreendente, mas verdadeira, iconoclastia.

domingo, 7 de junho de 2015

Entendendo o fanatismo do futebol

Um amigo nosso que gosta muito de futebol, mas respeita e até defende o direito de alguém não gostar do lazer preferido dos brasileiros, concordou em nos explicar como acontece o fanatismo no futebol e o que se passa na cabeça de cada torcedor. 

Foi uma conversa amiga, descontraída, respeitosa, com muitas comparações interessantes e que acabou deixando tudo claro a respeito de tudo. Acabou estimulando o entendimento e o respeito mútuo entre os que gostam e os que não gostam de futebol. Simpático e compreensivo, o torcedor só pediu para que não fosse identificado. Vamos à conversa.

Tela Verde - Como acontece o fanatismo no futebol?

Torcedor - É uma coisa arraigada em nosso cotidiano. Não faz sentido, mas é algo difícil de se eliminar. É como uma religião. As pessoas são educadas a cultuar o futebol, mesmo que isso não renda benefícios. É algo com que temos que conviver como algo inerente a nossa sociedade.

Tela Verde - Os escândalos de corrupção no futebol vão acabar com o interesse na modalidade esportiva?

Torcedor - Praticamente impossível que acabe. Nós, os torcedores, encaramos o que acontece nos bastidores, sobretudo o que se refere à cúpula de diretores como algo distante. Para nós, que interessa é o prazer de ver a bola rolando no gramado. O que acontece fora dos gramados costuma passar despercebido.

Tela Verde - Mas a manipulação dos resultados? Isso não tira a empolgação?

Torcedor - Amigo, cada partida de futebol é como um filme: gostamos de acreditar que aquilo é real. Quando você assiste ao "Missão Impossível", por exemplo, você vê o Tom Cruise, o rosto é dele mas não é ele que está lá, é o Ethan, o personagem. E Ethan faz coisas que Cruise não faria na vida real. É um roteiro pré-determinado, mas quando você assiste, parece um fato real acontecendo na hora. No jogo é assim, mesmo que todo o resultado e a atuação estejam decididos no início, acompanhamos como se todo esforço fosse verdadeiro. Igualzinho quando assistimos a um filme.

Tela Verde - A mídia ignora quem não curte futebol, tratando o gosto pela modalidade como uma unanimidade. O que acha disso?

Torcedor - Apesar de gostar muito de futebol, não concordo com isso. Vivemos numa democracia. Se eu acho no direito de gostar, eu deveria também respeitar e até lutar pelo direito de quem não gosta. Mas infelizmente, os brasileiros também são levados a acreditar nessa falsa unanimidade e acabam não respeitando o direito de quem não curte futebol. Quem não gosta de futebol vive como uma criança posta em castigo, quieta e sentada em um banco vendo as outras crianças brincarem, correndo e gritando pelo pátio. Acho essa exclusão lamentável.

Tela Verde - Em copas vemos muito isso acontecer.

Torcedor - Sim. Sem duvida, isso acontece. Infelizmente, Os não-torcedores são vítimas de exclusão e sofrem sozinhos. Seu lamento é abafado pelos gritos histéricos da torcida. As autoridades nunca se preocupam em épocas de copa em oferecer lazer a quem não curte o evento, gente cuja existência é ignorada. Quem não curte futebol se sente abandonado em épocas de copa, sem a companhia de amigos e tendo que se virar para arrumar diversão.

Tela Verde - Realmente, há muito preconceito contra quem não curte futebol.

Torcedor - E não deveria haver. Sinto que há uma rejeição por uma boa parte da sociedade contra quem não curte futebol. Estamos superando muitos preconceitos, ainda com muita resistência, mas nem começamos a lutar contra este. Dói saber que muitos perdem amigos e até empregos porque se recusam a gostar de futebol, sendo tratados como antipáticos, como se não quisessem "participar da brincadeira coletiva". Temos que lutar contra esse preconceito.

Tela Verde - Muitos torcedores ficam na defensiva quando conhecem alguém que não curte. Como se esse alguém tivesse o poder de destruir o futebol.

Torcedor - Outro pensamento lamentável resultante deste tipo de preconceito. Conheço alguns caras que não curtem, incluindo você, e todos são uma simpatia, respeitando o nosso lazer, mas criticando sabiamente quando há algum tipo de abuso. Mas não vejo ódio anti-futebol em suas críticas. Isso é paranoia de torcedor fanático que acredita numa suposta unanimidade que nunca existiu. A falta de unanimidade incomoda a muitos, que acabam por acreditar na ilusão de que quem não está na onda da maioria tem a intenção de arruiná-la.

Tela Verde - Há uma não-assumida regra social que obriga todos a curtirem futebol. Você acha que tem falsos torcedores infiltrados na torcida?

Torcedor - Sim. Tem muita gente que finge gostar de futebol para se sentir incluído na sociedade. Minha mulher, por exemplo, fala que torce para time tal, mas ela não acompanha os jogos, não conhece os jogadores, a biografia do time e muito menos a equipe técnica. Durante a copa, ela assiste aos jogos para não se sentir solitária, mas agindo de forma bem pedante. Na verdade, tenho que dizer, minha mulher não curte futebol. Mas ela sabe que se assumir isso publicamente, ela perde alguns direitos sociais. Isso é um fato muito mais comum do que se pensa e acredito que o número dos que realmente gostam de futebol possa ser muito menor do que se possa imaginar.

Tela Verde - Falando em copa, você acha justo que a sociedade brasileira pare durante um mês por causa de um campeonato de futebol?

Torcedor - Não deveria, mas há motivo para isso. O Brasil, pela sua natureza é um país lúdico. O lazer é visto como uma prioridade e em muitos estados é a principal fonte de renda. O turismo confirma isso. Autoridades enxergam na copa, mesmo não sendo realizada aqui, como meio de usar a diversão para aumentar lucros financeiros. É mais que provado que indústrias de bebidas e alimentos, fabricantes de acessórios decorados com as cores da seleção brasileira e a mídia, entre emissoras e patrocinadores, lucram mais dinheiro durante o período de copa, sendo interessante para o governo priorizar essa "galinha dos ovos de ouro". Por isso que autoridades concordam em parar o país, que na verdade continua fazendo renda, muito mais do que em tempos comuns.

Tela Verde - Para você, a copa foi um fracasso?

Torcedor - Sim, foi um grande fracasso. Não era o momento certo de organizarmos um evento desse porte. Independente de termos ou não ganhado o campeonato, a nossa imagem de anfitriões foi arranhada por nossa incompetência, mostrada na própria organização pueril e nas obras de infra-estruturas inacabadas até hoje, quase um ano após o fim. Até concordo que esta crise tem muito a ver com esta copa, como alertou muita gente no início.

Tela Verde - A derrota para a Alemanha, a pior na história da seleção brasileira, te magoou?

Torcedor - Claro que incomodou, mas não me magoou. Mas como sou um torcedor politizado, tinha a certeza da manipulação dos resultados. O Brasil só ganha ou perde no futebol quando os cartolas e patrocinadores querem. Queremos ou não, isso é um fato. Fingimos a honestidade durante os jogos porque precisamos desse fingimento para extrair prazer. Mas acabadas as partidas, somos obrigados a reconhecer essa manipulação. Até concordo que a copa de 2002 foi ganha desonestamente e na de 2010 a derrota foi forjada para que os torcedores pudessem sentir raiva do então treinador Dunga, que desobedeceu algumas ordens impostas pelos dirigentes.

Tela Verde - O que acha da violência no futebol. Ela é coisa de quem não gosta da modalidade, como dizem por aí?

Torcedor - Essa acusação é preconceituosa. Não acredito que seja coisa de quem não curte futebol. Quem não gosta de futebol costuma ser pacífico e prefere ficar longe dos jogos. Não-torcedores não iriam ficar perdendo tempo estragando o lazer alheio. Eles têm outras coisas a fazer. Para mim isso é coisa de quem ama demais a modalidade, mas não sabe se comportar dentro do hobby. Esse tipo de torcedores age como um grupo de fundamentalistas, lançando mão do desrespeito humano para impor o seu prazer particular.  A violência com absoluta certeza é resultante de fanáticos que usam o hobby para "soltar seus demônios". Gente que gosta demais de futebol, mas canaliza mal suas emoções durante os jogos.

Tela Verde - É bom associar o futebol a patriotismo?

Torcedor - Nem sempre. Mas isso acontece para aumentar o prazer no futebol. É uma fantasia, algo irreal, em que gostamos de acreditar durante as partidas. Uma comparação lhe fará entender isso. Numa relação sexual com sua namorada, ela decide se vestir de enfermeira durante o ato. Ela não é enfermeira de fato, mas durante a transa, você imagina que ela seja para que o prazer gerado pela fantasia seja maior. É a mesma coisa. Gostamos de acreditar que os jogos da seleção fazem bem ao país porque isso aumenta o prazer no hobby. Encerradas as partidas, voltamos a realidade e dissociamos o futebol desse civismo todo.

Tela Verde - Dá para perceber que o fanatismo do futebol gera um monte de transtornos. Há como mudar isso?

Torcedor - Sim, claro que há. O futebol em si nada tem de errado. É uma forma sadia de lazer. O problema sempre nasce quando enxergamos no futebol algo além da diversão. Quando os brasileiros enxergarem no futebol uma mera forma de lazer, como acontece com outros esportes, como o basquete, acredito que tudo de ruim que é atrelado à modalidade possa desaparecer. E aprenderemos a entender que o Brasil não precisa de uma modalidade esportiva para elevar sua auto-estima. Somos o país da diversidade e temos muita coisas para nos orgulhar. E ficarmos presos a uma forma de lazer apenas vai contra essa nossa vocação para a diversidade. Há espaço para o futebol, mas deveria haver espaço igual para muitas outras coisas, O país é grande o suficiente para isso.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Corrupção não espantará torcedores, que arrumarão jeito surreal de manter o fanatismo

A sucessão de denuncias de corrupção na cúpula da FIFA tem revelado um lado bem podre do entretenimento futebolístico. Mas não pensem que essas denúncias, comprovadamente verdadeiras em sua maioria, irão espantar os torcedores, fazendo-os migrar para modalidades esportivas mais honestas.

A natureza não dá saltos. E o povo brasileiro já demonstrou inúmeras vezes que não se dispõe a desistir de fontes de prazer duradouras. Pessoas que foram educadas durante muito tempo a gostar de uma determinada coisa, nunca desejam se livrar dela, pois representa o significado de alegria e bem estar por muitos anos de vida. Sair da zona de conforto não é algo fácil de se fazer da noite para o dia.

Na verdade, para a maioria dos torcedores, a conveniência será a de separar ao futebol de sua administração, o que é surreal. Boa parte dos torcedores ou tem um nível intelectual atrofiado ou simplesmente não está interessado nos bastidores do futebol. Torcedores querem ver bola rolando e entrando na trave. Honestamente ou não. Se o time preferido ganha, isso é o que interessa. Mesmo que o dirigente pague para que tal time ganhe desonestamente.

A prova e que a população gosta de separar bastidores de interesses é o fato de que muitos saíram em protestos contra a corrupção com a camisa de "seleção" com os símbolos das corruptas Nike e CBF bem claros. Obviamente saíram pensando que a camiseta simbolizava o país (para os brasileiros, a "seleção" é símbolo cívico), ignorando o verdadeiro motivo que levou a "seleção" a ser maioral. Que nada tem a ver com a suposta qualidade de seus jogadores, ídolos postiços superestimados pela população.

Fanatismo cresceu com João Havelange

Lendo o livro O Lado sujo do Futebol, soube que a transformação do futebol e da "seleção" em símbolos cívicos coincidiu com o crescimento de poder de João Havelange, brasileiro que presidiu a CBD (atual CBF) e foi o mão de ferro da FIFA. Ela foi o responsável por aumentar o prestígio do futebol para transformá-lo em inadiável compromisso cívico-social.

Altamente corrupto, Havelange viu na publicidade pseudo-cívica uma forma de transformar o futebol em uma obrigação, transformando os lucros financeiros que vinham dele em lucros garantidos, que chegavam pontualmente nas mãos de dirigentes e patrocinadores. 

Afinal, sendo uma obrigação, qualquer brasileiro se sente disposto a largar qualquer gasto importante para torrar dinheiro com o futebol. E é isso que garante os lucros. Afinal "é bom para a pátria". Mesmo que nunca melhore essa mesma pátria. E na prática, é isso mesmo: futebol não melhora o Brasil: é uma mera fuga de problemas que os torcedores, intelectualmente preguiçosos em sua larguíssima maioria, se recusam a resolver.

Mesmo assim, os brasileiros não estão dispostos a abandonar o futebol. Mesmo até com jogadores e ex-jogadores corruptos (Ronaldo está envolvido no escândalo e o giga-popular Neymar dá sinais de que compactua com o esquema e até criou empresa fantasma para isso, com o apoio do próprio pai). 

Mesmo que jogadores estejam envolvidos, para a população, eles são meros soldados a lutar pela pátria. A "seleção" é que é "A Pátria" e sendo institucionalizada, brasileiros nunca irão abandoná-la, mesmo que dirigentes e jogadores a abandonem. 

Futebol é instituição. Povo defenderá apelando para o surreal

Para a maioria a "seleção" e os times são instituições. E o povo vai continuar cultuando-as aconteça o que acontecer. Mesmo que todo o futebol seja uma farsa. Mesmo que apelem para o surrealismo de entregar a administração do futebol para o povo, como muitos ingênuos acreditam ser possível.

As pessoas vão tentar separar os casos de corrupção com o que acontece nos gramados (a mídia já está fazendo este serviço, evitando colocar de maneira consecutiva notícias sobre os escândalos e notícias sobre o que acontece os jogos), como se os jogos nada tivessem relação com o que ocorre nos escritórios das direções dos clubes. Mas têm.

Contos de fadas aprendidos na infância geralmente custam a sair de nossas mentes crédulas. Impossível convencer torcedores a deixar essas ilusões saírem de suas mentes.

domingo, 31 de maio de 2015

Revelações sobre corrupção irão acabar fanatismo futebolístico?

O assunto desta semana foi a prisão de vários dirigentes da FIFA, incluindo integrantes da cúpula da CBF e o ex-presidente da entidade, José Maria Marin, amigo de Paulo Maluf e ex-carrasco da ditadura. 

O fato acabou deixando vazar aquilo que somente os mais informados já sabiam e que foi mencionado em livros como O Lado Sujo do Futebol e Jogo Sujo, O mundo secreto da FIFA (que teve uma continuação, Um Jogo cada vez mais Sujo). A verdadeira sujeira por trás de um esporte que para muitos virou a razão de viver e regra social mais do que obrigatória.

Muito está sendo mencionado sobre este escândalo que é desnecessário falar aqui. Digitem em um site de buscas tipo Google "corrupção + futebol" e vão achar muita coisa. O que quero colocar aqui é até que ponto este escândalo vai influenciar no fanatismo futebolístico da maioria das pessoas.

Futebol, um ópio impossível de se largar

Muita gente deve estar preguntando se vale a pena continuar gostando de futebol sabendo agora das falcatruas que influenciam até os resultados. Só para dar um exemplo, coincidentemente, o Vasco da Gama, do Rio de Janeiro, melhorou muito o seu desempenho quando o corrupto e antipático dirigente Eurico Miranda voltou ao comando do clube.

Há muito tempo se nota a corrupção no futebol. Sobretudo no Brasil. Os dirigentes brasileiros conhecem a tara incontrolável de muitos brasileiros pela modalidade esportiva. Gente que prefere morrer de fome do que ver seu time perder. Gente que ama mais seu time do que a própria mãe. Esse fanatismo favorece para que torcedores se submetam a dirigentes e patrocinadores, fazendo cegamente tudo que estes poderosos senhores querem.

E dinheiro chama dinheiro. Torcedores capazes de pagar tudo pelo vício futebolistico sustentam toda esta farsa de resultados combinados e pura encenação, capaz de transformar um menino medíocre como Neymar (só acha ele genial quem não conhece o futebol em seu auge, muitas décadas atrás) em um "deus" da bola, com direito ao típico fanatismo religioso em torno do jovem santista. E mesmo sendo uma farsa, não há que esteja disposto a largar o futebol por causa dessa decepção.

Acho muito difícil, quase impossível, que torcedores larguem o futebol por causa desses escândalos. A tendência é separar o futebol dos cartolas. Uma separação artificial, já que o futebol não se sustenta sem a cartolagem. Se for como os torcedores imaginam, se baseando na tolice infantil de que o "futebol pertence ao povo", o futebol profissional perderá glamour e se tornará igual aos praticados todos os finais de semana nos campos de várzeas das localidades mais pobres.

E o que restará disso?

Vai tudo continuar na mesma coisa, pois o fanatismo cultivado por décadas de vida não vai acabar assim de uma hora para outra. Melhor dizendo: restará duas opções para os torcedores:

- Largar o futebol e procurar um esporte mais honesto (geralmente menos popular);
- Ou assumirem que são cúmplices de cartolas e aceitar a manipulação de resultados, fingindo honestidade onde realmente não há.

Bem provável que torcedores optem pela segunda alternativa. Futebol é como uma novela, com roteiros prontos e final pré-determinado. Na maioria dos jogos, os jogadores já entram sabendo o que fazer e como terminarão as partidas, conhecendo muito bem o vencedor.

O dinheiro que circula o meio é altíssimo e tudo será feito para manter fanatismo. Não adiantará os torcedores tentarem separar o futebol da corrupção senão a magia acaba. Quem conhece a História sabe muito bem que os melhores resultados coincidem com períodos de maior roubalheira.

Está na hora de procurar outro esporte para curtir. Badminton e curling parecem ser duas boas sugestões.

domingo, 26 de abril de 2015

Rede Globo nunca respeitou quem não curte futebol

A Rede Globo sempre se empenhou em uniformizar o pensamento da sociedade brasileira, se baseando sempre nos interesses e no ponto de vista da Família Marinho, que administra a emissora de televisão.

É interessante que haja uma mídia manipuladora que impeça o pensamento diversificado para que o sistema se mantenha desigual e os privilégios de políticos, empresários e celebridades se mantenham intactos. Por isso mesmo, todo o esforço e válido para que a TV construa os valores que acha que a sociedade deve acreditar e que acaba acreditando. E o futebol é um desses valores.

Durante muitas décadas acreditamos que o futebol era uma unanimidade. Misto de compromisso com paixão, uma lei informal que era cobrada com absoluto rigor. Para muitos ser "brasileiro" é gostar de futebol. A ponto de muitos ainda confundirem o país com o próprio futebol, saindo com a camiseta da corrupta CBF para pedir o fim da corrupção (??!!), achando que a "seleção" e o país são a mesma coisa. Tolos.

Essa ideia de unanimidade compulsória do futebol ainda continua. Mas desde que surgiu a internet, essa ideia deixou de ser absoluta. E isso é o que incomoda aqueles que viviam na falsa concordância do futebol-unanimidade. 

Uma novidade se instalou no país: embora ainda curtido por uma maioria esmagadora, o futebol deixou de ser uma unanimidade. E melhor, a internet questionou a unanimidade que nunca existiu, já que quem não curtia futebol sempre teve o seu "bico" calado, sem direito de se manifestar.

E a Rede Globo, até hoje, ainda prefere fazer vista grossa aos que não curtem futebol. Para a Vênus Platinada, brasileiro e torcedor de futebol são sinônimos e quem não curte futebol não existe. 

Claro que por ser parceira dos cartolas, de escolher horários de jogos, de receber e dar patrocínio a times, é interessante para a Rede Globo forjar a unanimidade do futebol. Quem não curte futebol que se vire para se divertir e para arrumar amigos. Até porque como "desertor social", os não-torcedores acabam sempre abandonados pelas pessoas "normais" nas horas de jogo.

A Rede Globo nunca fez algo que pudesse estimular o respeito para quem não curte futebol. Na contramão, torcedores estranhamente reivindicam respeito com insistência, como se eles é que fossem os excluídos da sociedade. Mesmo tendo o apoio de multidões, da mídia e de autoridades políticas, que só trabalham para quem curte futebol.

Quem não curte é solenemente esquecido. E quando é lembrado, é tratado como louco, como malvado, como bandido, como se quisesse destruir estádios, matar jogadores e rasgar uniformes de time. Nada disso. O não-torcedor é um ser pacifico e seu único desejo é estar alheio à "grande festa da torcida brasileira". E nada além disso.

Mas infelizmente, para a grande mídia o futebol ainda é uma unanimidade. Salvo notas publicadas esporadicamente na Folha de São Paulo e em reportagens na MTV, os não-torcedores ainda continuam solenemente ignorados pela mídia oficial, embora estejam aumentando em quantidade e causem bastante barulho na internet.

O mito da unanimidade do futebol é mais um fator que prova que a ídia não respeita a diversidade de pensamentos, quem impor ideias, manipula e mente. Os supostos paladinos da liberdade de expressão não querem nos dar essa mesma liberdade. Continuemos apensar como a mídia quer, achando que vivemos não em um país, mas em um estádio de futebol, sendo obrigados a transformar esta forma de diversão em prioridade máxima para a sociedade brasileira. 

Neste jogo, o bom senso ainda perde de goleada.

Vini Jr, Racismo e a hipocrisia da Classe Média brasileira

O assunto desta segunda feira com certeza foi o inaceitável caso de racismo sofrido pelo jogador Vinicius Júnior, o Vini, durante um jogo de...