quarta-feira, 5 de outubro de 2016

A demissão de José Trajano e o que isso significa

Eu não sou muito ligado em ver esporte (praticar é sempre muito melhor do que ver). Gosto apenas de ver alguns, mas sem fanatismo. Não interrompo atividades importantes para assistir a partidas esportivas. 

Não colocar esporte acima de outras coisas é uma heresia em uma sociedade como a brasileira que diviniza o esporte e não consegue enxergar o lado ruim por trás dela (que infelizmente é real). Mas como entretenimento, o esporte consegue cumprir a sua função e para quem curte é um ótimo meio de passar as horas que não se tem algo importante a fazer.

Às vezes assistia ao ESPN mais pela qualidade de seus programas do que pelo esporte em si. Boa parte da qualidade do canal é de responsabilidade de José Trajano, um dos melhores jornalistas esportivos que existiram no país (esqueçam o Galvão: ele não é jornalista, é um torcedor fantasiado; um cheerleader! Só a Globo gosta dele). 

Trajano foi fundador da filial brasileira do ESPN e executivo do canal. O ESPN era, pelo menos na era Trajano, o único canal esportivo brasileiro que não era ligado a cartolagem ("cartola" é gíria para empresário esportivo no Brasil) e também o único a não tratar o futebol como "dever cívico".

O futebol como "dever cívico" é um estereótipo ainda bastante arraigado em nosso país e que transforma o futebol em uma obrigação social, marginalizando as pessoas que como eu , não curtem a modalidade esportiva mais popular do país. Ah, até o respeito ao não-torcedores o ESPN tinha, por reconhecer a diversidade esportiva e reconhecer também que o futebol não passa de uma mera forma de diversão, sadia, válida, mas não obrigatória.

A demissão de José Trajano

Mas de qualquer modo sempre admirei a figura de Trajano, com seus comentários sensatos e seu talento de apresentador de programas. Mas com o tempo pude admirá-lo ainda mais por causa de seu humanismo e de sua responsabilidade social de se assumir ideologicamente progressista, algo que em dias temerosos não é algo muito bem visto.

Pois infelizmente, José Trajano foi demitido do canal que ajudou a fundar. Mal comparando, seria como se o anfitrião fosse expulso da própria festa e ela continuasse depois. o canal perde não somente um dos melhores jornalistas esportivos do país como também o grande responsável pela qualidade do ESPN, que poderá cair sem a influência do jornalista recém demitido.

Mas porque estou falando disso em um blog sobre Administração? É porque a demissão foi justificada de duas formas: uma publicamente, outra nos bastidores.

- A  justificativa pública: "contensão de despesas". Visando a crise e a redução de funções por causa da evolução tecnológica, acharam melhor cortar profissionais do quadro. Curioso que empresários só sabem resolver crises com demissões - ao meu ver, uma atitude típica de administrador incompetente e/ou ganancioso. Mais curioso ainda é ver Trajano, experiente e talentoso sendo colocado na lista de demissões.

- A justificativa dada nos bastidores: "Trajano não deveria assumir sua postura política pois ele estaria representando a ESPN diante do público". A empresa, ao dizer isso, demonstra incapacidade de separar o profissional Jose Trajano do cidadão José Trajano. 

O profissional José Trajano fala de esporte e sobre coisas relacionadas sobre esporte. Quando falava sobre política, já não era mais o jornalista e sim o cidadão, pagador de impostos e ser humanista, preocupado com as causas sociais, que tinha o direito de assumir sua postura e utilizar a sua fama para estimular o surgimento de um mundo mais justo. 

Responsabilidade Social

A empresa ESPN não deveria ficar se preocupando com a postura política de Trajano, pois ela nunca prejudicou o canal. Pelo contrário, atraia a audiência de torcedores de posição política esquerdista, já que os outros canais esportivos assumem uma postura bem conservadora, de orientação política direitista. 

A ESPN poderia se beneficiar com isso e oferecer um diferencial para um público que é carente de uma mídia esportiva mais objetiva e menos sectária. Assumindo uma liberdade ideológica ao permitir esquerdistas em seu quadro de jornalistas, transmite simpatia e humanidade, além de aumentar a credibilidade, pois sabemos que faz parte da mentalidade direitista querer trapacear. O golpe instaurado no Brasil não me deixa mentir sobre isso.

Mas Trajano foi demitido, e agora é olhar para a frente. Não considero isso como uma derrota. pelo contrário. Trajano é um profissional consagrado, de qualidade comprovada e com grande número de admiradores. Seu senso de humanismo só aumentou ainda mais a quantidade de admiradores (eu sou um).  

Com a mais absoluta certeza, não faltarão instituições jornalisticas dispostas a contratar Trajano para seus quadros. Afinal é de um jornalista como Trajano que o esporte precisa e a sua responsabilidade social é um exemplo para todos nós. 

Afinal responsabilidade social não é dar uma bolinha para um pobre jogar. É criar meios para que a pobreza nunca exista, para que a renda seja melhor distribuída e que todos os seres humanos possam caminhar dignamente com os próprios pés. Trajano sabe disso, mas pelo jeito os empresários da ESPN não sabem. Se sabem, gostariam de não saber.

(A ser publicado amanhã no meu site Reflexões Administrativas)