domingo, 23 de julho de 2017

Se meu desprezo pelo futebol te incomoda, é porque você me obriga a gostar

Dependendo do lugar, certos costumes tidos como positivos em um, podem ser negativos em outro. Existem certos costumes que são inacreditavelmente ofensivos em certos lugares. No Rio de Janeiro é ofensivo assumir o desprezo pelo futebol.

O Brasil considera o futebol como seu dever cívico. Mas no Rio de Janeiro e em estados onde o fanatismo é grande, como São Paulo e Rio Grande do Sul, o gosto pela citada modalidade esportiva é considerada uma regra de etiqueta. Assumir o não-gosto é como uma recusa ao contato social. 

Por isso que muita gente que nem curte futebol se apressa em escolher o seu time, mesmo sem saber o nome do principal craque e sua situação no campeonato local ou nacional. Os mais sociais escolhe entre os times mais populares. Os que não querem se arriscar em conversas infindáveis sobre futebol escolhem times menos famosos como o Bangu e o América, "favoritos" de quem detesta futebol.

Para quem não entende a reação do carioca diante de quem não curte futebol, é similar ao que acontece com evangélicos quando estão diante de um ateu. Por acreditar no absurdo de que o futebol "está no sangue" ou seja, "faz parte" da essência humana, tratam aquele que não curte como se fosse um desequilibrado. Como se o cérebro de quem despreza o futebol não estivesse funcionando direito.

Claro que para dar a impressão de que é democrático, pois ninguém gosta de se assumir autoritário, mesmo que de fato o seja, ninguém assume a intenção de obrigar os outros a gostar de futebol. Mas no cotidiano percebe-se que o conhecimento de alguém que não curte futebol gera um baita incômodo e um longo debate que obriga o não-torcedor a explicar a sua opção.

Não há lei que me obrigue a gostar de futebol. E existem muitos esportes que poderiam atrair público mas são ignorados pelo fanatismo compulsório pelo futebol. Não é porque milhões decidiram de forma SUBJETIVA de que o futebol é dever cívico que tenho que gostar. Tenho mais coisas a fazer do que perder 90 minutos preciosos vendo algo que não me dá prazer.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Porque os coxinhas usam camiseta da CBF?

Esta é uma pergunta que não se viu em lugar nenhum. nem mesmo sites de curiosidade se preocuparam em tentar entender o fato. Como se fosse comum usar um uniforme de time de futebol (sim, time de futebol: a "seleção" nunca passou disto) em manifestações sobre política.

A origem disso está em algo típico de nosso país e resultante de nossa ignorância, nossa noção distorcida de civismo e nosso desinteresse sobre política. É um erro que praticamente só os brasileiros cometem: confundir futebol com patriotismo. O que influi na nossa tolice de acreditar que vitórias no futebol interferem na melhoria da qualidade de vida da população.

Obviamente se os brasileiros não confundissem futebol com patriotismo, não sairiam a protestos supostamente cívicos com o uniforme de um time de futebol. Mas a tradicional confusão resultante da necessidade de impor o futebol como "orgulho nacional" e símbolo de identidade permite que ridiculosidades como usar camiseta de time em protestos políticos ocorram.

O futebol é a nossa unica noção de civismo, infelizmente. Em eventos de futebol é a única oportunidade que temos para cantar o Hino Nacional de forma apaixonada e aparentemente espontânea. Nos empenhamos em desejar a vitória da "seleção" a todo o custo, sem a dedicação que deveríamos ter em assuntos mais sérios. A Lei Áurea acaba de ser revogada e todo mundo fica quieto. E nós traumatizados com um 7 a 1 bobo que não interfere em nosso cotidiano.

É curioso ver camisetas da CBF nos protestos supostamente anti-corrupção (que na verdade eram anti-esquerda, em manifestações secretamente remuneradas por grandes empresários). Toda a CBF é corrupta, o que seria motivo suficiente para que ninguém usasse o uniforme da "seleção" na em protestos alegados contra a corrupção. 

A copa de 2002 foi claramente conquistada com muita trapaça e compra de atuações, ocorridas nos bastidores, longe das câmeras de televisão. Não por coincidência, copas ocorrem em mesmos anos que eleições para presidente, o que sugere que o resultado no futebol pode interferir nas eleições. O que reforça ainda mais a confusão entre futebol e pátria, cacoete exclusivo do povo brasileiro.

Por isso mesmo que os coxinhas saíram nos protestos anti-esquerda e (agora revelado como) pró-corrupção com a camiseta da CBF. Para quem considera o país como "Pátria de Chuteiras" e o futebol o nosso maior bem (Destruam a Petrobrás, mas não acabem com a "seleção"), a camiseta da CBF é o maior símbolo que temos para mostrar o nosso falso civismo.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Futebol e a noção brasileira de civismo

Brasileiro nunca foi um povo patriota. Adora tudo que vem dos países desenvolvidos (mesmo o que é ruim) e não se importa em ver bens e direitos arrancados em nome da exploração feita por esses mesmos países.

A única noção de patriotismo que o brasileiro tem é no esporte, sobretudo no futebol. Criando para ser apenas uma opção de lazer, o futebol se tornou hegemônico graças a uma intensa e repetitiva campanha publicitária que conseguiu transformar a modalidade em falso consenso de um país que deveria ser diversificado.

O resultado disso é o futebol transformado em obrigação cívica e social. Quem assume publicamente não curtir futebol é rapidamente isolado da sociedade. Por isso, muita gente, sobretudo mulheres, sem praticamente gostar do que observam na tela esverdeada, se apressam a escolher o seu time "do coração" sem praticamente saber qual o nome do artilheiro do alegado time, em geral um daqueles nomes ridículos que pessoas de baixa escolaridade adoram colocar em seus filhos.

A decepção com o resultado da última copa - com a realista derrota de 7 a 1 que foi desabafada pela onda de ódio conservadora que tomou o país - mostrou que para os brasileiros, o importante é ser bom no futebol. Até penso que se o Brasil todo for destruído e somente o Maracanã ficar de pé, os brasileiros respirarão aliviados, mesmo sem ter onde morar e sem ter o que comer.

Com a proximidade da Copa, os brasileiros já começam a agir para que o Brasil volte a ser a pátria de chuteiras. Esquerdistas e direitistas, brancos e pretos, ricos e pobres, homens e mulheres, adultos e crianças, nerds e pit-boys, todos trabalham para que sua única - e equivocada - noção de civismo seja preservada. 

A meta em ganhar mais uma copa irá se sobrepor ao desejo de melhorar a qualidade de vida e lá estaremos todos nós berrando feito alces no cio diante de um aparelho de televisão ligado na GLOBO (quem odeia a Globo? Parem de me enganar: TODOS AMAM A GLOBO).

E como tem sido desde que um brasileiro sentou no comando da FIFA: mais uma vitória no futebol, temperada com derrotas incessantes na vida cotidiana. Brasileiro, povo infantil, sempre priorizou a brincadeira acima da seriedade. Por isso, golpes ocorrem e  nunca deixamos de ser uma República das Bananas.

Então, paremos de hipocrisia e elegemos Neymar presidente o mais rápido possível. Se o Brasil é uma pátria de chuteiras, não há nada que o "melhor jogador do país" não saiba fazer para governá-lo.