segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

O futebol e o poder de sociabilização - Parte 1

Muitas vezes me ponho a pensar: porque um esporte como o futebol pode ser tão popular se ele não possui características realmente sedutoras, capazes de realmente atrair a atenção das pessoas? Deixando de lado a poderosa e inegável influência da mídia, posso dizer que existe um motivo. E não está no esporte em si.

Na verdade o futebol em si não tem a capacidade de seduzir pessoas que não façam parte da militância deste esporte. É um esporte que só agrada mesmo quem se interessa por ele. Mas porque quase toda a população faz questão de ter um time e torcer em época de copas. Simples: medo da solidão.

O futebol está arraigado no nosso cotidiano. Já faz parte das regras sociais e até mesmo de alguns itens da etiqueta social. Fingir que gosta chega a ser um meio de evitar discussões maiores entre as pessoas.

E assim , cada um vai escolhendo um time para "pôr na carteira de identidade", como se escolhesse uma "tribo" na qual deseja fazer parte. O que subentende que quem não gosta do futebol não faz parte de grupo nenhum, ficando fora da "brincadeira".

E nas copas então? Vestir aquela horrível camiseta amarela, padronizando o visual da população (ditaduras adoram padronizar) se torna um meio de se sentir incluído socialmente, de fazer parte da "raça humana", usufruindo de benefícios e se mantendo acompanhado. mas isso tem um preço.

E qual esse preço? Abrir mão do prazer e da personalidade. Fazer algo que não se gosta para agradar os outros. O fato do futebol ser um lazer e as pessoas não verem - pelo menos em tese - nada de nocivo nele, faz com que muitos achem que "não há nada mal em 'gostar' um pouquinho de futebol a cada 4 anos". Mas isso é gostar?

Pergunte a qualquer um que não costuma gostar de futebol porque passa a "gostar" de vez em quando. A resposta vem como um torpedo, na ponta da língua: se eu não aderir, fico sozinho. E está explicada a questão.

Eu quero é ver gol

Apenas 40% da população gosta realmente do futebol. O resto, misturam-se os que pensam que gostam (os torcedores de ocasião), os "patriotas" de copa, que só "gostam" de 4 em 4 anos (pensando estar cumprindo um "dever cívico") e os que não gostam. Sim, boa parcela assume que não gosta e não é só mulheres. Muitos homens não gostam.

Quem não gosta de fato e pensa que gosta, como os torcedores de ocasião e os "patriotas" de copa, basta decorar o nome dos artilheiros e do goleiro, o hino de um time, suas cores e usar o uniforme para se considerar um "torcedor legítimo".

Mas para estes, termos técnicos são chatos, "cartolas" não existem e auxiliares técnicos só passam a existir quando alguém se machuca. O jogo todo é uma chatice. Assistem apenas o jogo naquela expectativa pelo gol, que sempre dá a oportunidade de um grito, como se naquele momento a pessoa estivesse aproveitando para desabafar. povo que tem medo e preguiça de resolver os seus problemas prefere desabafar gritando "gol!".

É um outro motivo para que o futebol seja tão popular: a catarse. No Brasil atual, a diversão tem se limitado à catarse (explodir sensações) e a satisfação de instintos. Ninguém mais quer se divertir de maneira tranquila e poética.

Culto aos incultos

Deve ser realmente obrigatório o fanatismo futebolístico na sociedade brasileira. Pois muita gente com diploma superior, culta, com referencias culturais boas, decide se ajoelhar diante um bando de analfabetos sem o 4º ano completo, com muitos torcedores idem, gente que não sabe o mínimo da vida e que se arroga por ter subido rapidamente na vida, praticamente sem esforço, fazendo algo que a maioria faz por lazer nos finais de semana. Um total desestimulo à educação, num país onde a população é estimulada a não ler livros e onde intelectuais são tratados como "chatos deprimidos", fazendo com que os conselhos destes, muitas vezes certos, não sejam seguidos.

Futebol em si não está errado, mas o culto a ele é com certeza exagerado. O ideal é que apenas as pessoas que realmente gostam, conhecendo suas regras, detalhes mínimos, bastidores e até mesmo o que os "cartolas" fazem, os processos administrativos e por aí vai.

Porque esse papo de "200 milhões de 'técnicos' " além de ridículo e falso, é anti-democrático, pois ninguém é obrigado a gostar ou desgostar de futebol. Um país enorme como o nosso não pode monopolizar a diversão para uma só coisa, pois a vocação do brasileiro é pela diversidade, pela variedade e pelo respeito às diferenças.

Impor o culto ao futebol a todos é negar a essência do brasileiro, transformando-o em um robô programado pela mídia e regras sociais, sem vontade e sem poder de decisão, querendo a todo o custo ser incluído na sociedade, fazendo algo que normalmente não tem a paciência para fazer normalmente.

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